Professor alemão fundou organização estudantil secreta e deixou túmulo dentro do prédio do Largo São Francisco
Quem: Johann Julius Gottfried Ludwig Frank — conhecido no Brasil como Júlio Frank —, intelectual alemão natural de Gotha, na Turíngia.
O que: Frank fundou a Burschenschaft Paulista, adaptada como “Bucha”, uma sociedade estudantil de caráter secreto que auxiliava financeiramente alunos sem recursos e difundia ideais liberais.
Quando e onde: Oficialmente constituída em 4 de julho de 1830, a associação nasceu no ambiente acadêmico do Largo São Francisco, sede da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Como: Formado na Universidade de Göttingen, Frank chegou ao Brasil em 1828 e passou a dar aulas particulares para estudantes do interior e da capital. Ao verificar a dificuldade de alguns alunos em manter os estudos por falta de recursos, ele propôs a criação de uma associação inspirada nas Burschenschaften europeias, com estatutos, código moral e ritualidade. A organização foi estruturada com graus hierárquicos para alunos e ex-alunos e angariava recursos por doações e contribuições.
Por que: Segundo relatos, a finalidade pública da Bucha era filantrópica — socorrer estudantes promissores —, mas sua confidencialidade também atendia a razões de discrição social e, em parte, a objetivos políticos liberais em um contexto marcado por tensão contra opositores do regime, como no caso do atentado que matou o jornalista Líbero Badaró em 1830.
Júlio Frank, nascido em 1808, era aluno de destaque em disciplinas como Filosofia, Letras, História e Matemática, mas deixou a Alemanha após problemas disciplinares e dívidas. No Brasil, atuou como professor do curso anexo da Faculdade de Direito e ganhou prestígio entre alunos e professores. A Bucha, idealizada por ele, cresceu rapidamente em número e influência, reunindo professores, estudantes e figuras da sociedade.
A organização manteve uma hierarquia interna — entre os estudantes havia categorias como Catecúmenos, Crentes e Doze Apóstolos; entre os formados, estruturas como o Conselho dos Divinos — e, ao longo do tempo, passou a atuar fora dos muros acadêmicos, influenciando carreiras políticas e administrativas. Durante a República Velha, a presença de ex-integrantes da Bucha no poder foi frequentemente apontada por observadores históricos. Cerimônias como a Festa da Chave simbolizavam a passagem de comando entre gerações dentro do grupo.
Ao longo das décadas, a Bucha participou de iniciativas públicas, como a criação da Liga Nacionalista em 1916 e ações de assistência durante a epidemia de gripe espanhola em 1918. No entanto, após a Revolução Tenentista de 1924, o presidente Artur Bernardes proibiu as atividades da organização, o que acabou por encerrá-la nas décadas seguintes.
A vida e a origem de Frank alimentaram especulações ao longo dos anos: houve quem defendesse teorias ligando-o a heterônimos ou a origens nobres. Seu túmulo, ornamentado com a imagem da coruja de Minerva — símbolo associado a lojas maçônicas —, fica em um pátio interno da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Protestos de alunos e a recusa de sepultamento em cemitérios católicos levaram à solução de enterrá-lo no interior do prédio, após pedido do conselheiro José Maria de Avellar Brotero ao bispo Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade.
Frank morreu em 1841, aos 32 anos, vítima de pneumonia. O túmulo dentro da Faculdade de Direito é hoje tombado como patrimônio histórico em São Paulo.
Com informações de G1




