Debate sobre reingresso na UE volta ao centro da política britânica
Dez anos após o referendo que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia, líderes políticos britânicos reabriram o debate sobre a possibilidade de o país voltar ao bloco. A discussão ganhou força após declarações do ministro do Comércio, Chris Bryant, e do ex-ministro da Saúde Wes Streeting, e ocorre em um cenário de divisões internas no Partido Trabalhista.
Em entrevista à Agence France-Presse no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, Bryant afirmou que o Brexit causou “enormes problemas para a economia do Reino Unido” e declarou esperar que o país seja readmitido “de volta ao coração da Europa, de forma plena e sólida, como membros da União Europeia” ainda durante sua vida.
O ministro, entretanto, salientou que esse retorno não é iminente. “Não vamos fazer isso neste verão”, disse, ao mencionar impactos no comércio exterior: segundo ele, cerca de 16 mil empresas britânicas deixaram de exportar para a Europa desde a saída do bloco. Bryant qualificou o Brexit como “um gol contra” e ressaltou que, apesar de tentativas de ampliar laços com parceiros como Coreia do Sul, Turquia e Suíça, a União Europeia continua sendo o principal mercado do Reino Unido, respondendo por parcela significativa do comércio do país.
Wes Streeting acrescentou ao debate ao classificar a saída da UE como “um erro catastrófico”, afirmando que o país ficou “menos rico, menos influente e menos capaz de controlar seu próprio destino do que em qualquer outro momento desde a Revolução Industrial”. Streeting defendeu que o tema volte a ser discutido publicamente: “O futuro da Grã-Bretanha está na Europa e, um dia, de volta à União Europeia”, disse.
O primeiro-ministro Keir Starmer tem adotado postura cautelosa: embora tenha aproximado Londres de Bruxelas desde que assumiu, evita propor formalmente a readesão, dizendo que o retorno pode ocorrer “anos adiante” e que, por ora, seu foco é estreitar relações com a UE no interesse nacional.
A reabertura do tema acontece em meio a pressões internas no Partido Trabalhista, após desempenho aquém do esperado nas eleições locais, que levou dezenas de parlamentares a pedir que Starmer considere deixar o cargo ou anuncie um cronograma para sua saída. Figuras como Andy Burnham e a ministra da Cultura Lisa Nandy manifestaram reservas sobre reiniciar a discussão agora; o deputado Dan Carden destacou que eleitores das comunidades trabalhadoras não querem ser culpabilizados pelo voto no Brexit.
Na oposição, a líder conservadora Kemi Badenoch acusou os trabalhistas de reabrir um debate encerrado, e Nigel Farage afirmou que Streeting tenta “arrastar” o país de volta à União Europeia.
O Reino Unido deixou formalmente a UE em 2020, após quatro anos de negociações desde o referendo de 2016, quando 51,9% dos eleitores votaram pela saída. Desde então, Londres e Bruxelas vêm reconstruindo relações: em 2025 firmaram acordos para ampliar cooperação em defesa e segurança e flexibilizar restrições ao comércio de alimentos, e uma nova cúpula bilateral está prevista para o verão europeu.
Uma imagem registrada em 5 de março de 2025 mostra uma manifestante contrária ao Brexit em frente ao Palácio de Westminster, em Londres, ilustrando o clima de mobilização em torno do tema.
Embora um retorno à União Europeia ainda pareça distante, as afirmações recentes de figuras políticas indicam que a possibilidade deixou de ser um assunto evitado no debate público britânico.
Com informações de G1




