Plataformas bloqueadas pelo governo são usadas por políticos e influenciadores como termômetro eleitoral
Plataformas de mercado de previsão, como Polymarket e Kalshi, proibidas no Brasil, tornaram-se referência nas redes sociais entre políticos e apoiadores de direita como uma alternativa às pesquisas eleitorais tradicionais. O uso das plataformas como indicador político se intensificou após o bloqueio imposto pelo governo, que em abril barrou ao menos 27 sites desse tipo.
Esses serviços permitem a compra e venda de contratos que remuneram quem aposta corretamente na ocorrência ou não de eventos, e são classificados no jargão financeiro como derivativos. Apesar da divulgação nas redes, especialistas consultados pela reportagem alertam que mercados de aposta não substituem pesquisas de intenção de voto e não medem exatamente as mesmas coisas.
No debate público, a narrativa de que as plataformas apontariam liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL) ganhou força em publicações de perfis ligados ao bolsonarismo. Entre as postagens analisadas, um conteúdo do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, publicado em 6 de maio de 2026, foi o mais engajado do recorte, com 16,7 mil curtidas e 5,6 mil compartilhamentos. Em 9 de maio, o empresário Paulo Figueiredo publicou outra mensagem que obteve 11,6 mil curtidas e 3 mil compartilhamentos.
Dados do próprio Polymarket na última semana de maio mostravam cerca de US$ 86,8 milhões em volume negociado em contratos vinculados à eleição presidencial de 2026. Na plataforma, as probabilidades apontavam aproximadamente 44% para Lula, 28% para Flávio Bolsonaro e 13% para Renan Santos. Com o bloqueio de acesso no país, usuários brasileiros têm recorrido a serviços de VPN para acessar os sites.
Especialistas ressaltam diferenças fundamentais entre pesquisas e mercados de aposta. O estatístico Raphael Nishimura, da Universidade de Michigan, explica que pesquisas buscam estimar intenção de voto, enquanto plataformas de previsão indicam a probabilidade de vitória calculada a partir das apostas. Já o professor Josilmar Cordenonssi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, observa que mercados se movem em tempo real e refletem riscos e incentivos financeiros dos apostadores.
Relatórios e investigações internacionais apontam concentração de ganhos e riscos nessas plataformas. Levantamentos da Bloomberg e do Wall Street Journal indicam que contas grandes frequentemente concentram os lucros — segundo o WSJ, cerca de 67% dos ganhos da Polymarket estariam concentrados em 0,1% das contas, com quase US$ 500 milhões recebidos por menos de 2 mil usuários. Também houve casos em que o uso de informação privilegiada motivou investigações, como a denúncia feita pelo Departamento de Justiça dos EUA contra Gannon Ken Van Dyke.
No Brasil, o bloqueio foi determinado após resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN). O ministro Dario Durigan afirmou que o segmento atuou em condição de anarquia e que esses mercados não deveriam ser tratados como derivativos regulares no país. O setor regulado e empresas de apostas esportivas também pressionaram por medidas, argumentando desequilíbrio competitivo porque plataformas sem sede no Brasil não pagaram outorgas exigidas para operar.
Para especialistas, a restrição tem origem em discussão regulatória: enquanto pesquisas tentam descrever o eleitorado em determinado momento, mercados de previsão refletem apostas financeiras que podem ser influenciadas por poucos operadores com recursos e informação antecipada.
Com informações de G1




