Operações cibernéticas acompanham ofensivas físicas e visam espionagem e intimidação
Enquanto civis israelenses corriam a abrigos durante ataques de mísseis atribuídos ao Irã, mensagens com links para um suposto aplicativo de informações em tempo real sobre abrigos antiaéreos foram enviadas a usuários de celulares Android. Em vez do serviço prometido, o link instalava um software malicioso que dava aos invasores acesso à câmera, à localização e aos dados pessoais dos aparelhos.
Especialistas consideram essa ação um exemplo de coordenação sofisticada no campo cibernético da disputa que opõe Estados Unidos e Israel ao Irã e seus aliados digitais. Segundo Gil Messing, chefe de gabinete da empresa israelense de cibersegurança Check Point Research, a sincronização das mensagens com os ataques físicos — enviadas “enquanto as pessoas corriam para os abrigos” — foi algo inédito.
Investigadores apontam que o Irã e seus apoiadores têm usado recursos como desinformação, inteligência artificial e invasões digitais para compensar limitações militares convencionais. Esses ataques visam principalmente espionar, roubar dados e intimidar, em vez de causar baixas ou conquistar territórios.
Dados de empresas de segurança mostram grande volume de tentativas de intrusão com impacto muitas vezes limitado. A DigiCert, com sede em Utah, rastreou quase 5.800 ataques atribuídos a cerca de 50 grupos ligados ao Irã, majoritariamente direcionados a empresas dos EUA e de Israel, e também a redes no Bahrein, Kuwait, Catar e outros países da região. Michael Smith, diretor de tecnologia de campo da DigiCert, afirma que muitos incidentes não são reportados publicamente.
Alguns ataques têm caráter chamativo e simbólico. Um grupo pró-Irã disse, na sexta-feira (27), ter invadido a conta do diretor do FBI, Kash Patel, divulgando fotografias antigas, currículos e documentos pessoais, em sua maior parte com mais de uma década. Pesquisadores descrevem esse tipo de operação como destinada a promover moral entre apoiadores e minar a confiança do adversário, sem grande efeito no esforço de guerra.
Infraestruturas críticas e cadeias de suprimentos também têm sido alvo. Hackers que apoiam o Irã afirmaram ter invadido a empresa americana de tecnologia médica Stryker, em ataque que, segundo os autores, seria retaliação a bombardeios. Pesquisadores da empresa de cibersegurança Halcyon relataram outro ataque que bloqueou o acesso de uma organização de saúde à própria rede sem pedido de resgate, sugerindo objetivo destrutivo.
A inteligência artificial tem potencializado tanto ataques quanto defesas: permite automatizar e acelerar invasões e, no campo da desinformação, tem sido usada para criar deepfakes — inclusive um vídeo falso de navios de guerra americanos afundando que acumulou mais de 100 milhões de visualizações. Em resposta, os EUA criaram em 2025 o Escritório de Ameaças Emergentes, para lidar com riscos de novas tecnologias, juntando-se a esforços da CISA e da NSA. A diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, declarou ao Congresso que a IA aumentará a velocidade e eficácia tanto de ofensivas quanto de defesas cibernéticas.
Apesar de Rússia e China serem consideradas ameaças cibernéticas maiores, autoridades observam que o Irã tem conduzido múltiplas operações contra alvos americanos nos últimos anos, incluindo infiltrações em sistemas de campanhas, ataques a infraestrutura de água e tentativas contra redes militares e de contratados de defesa.
O conflito digital entre Irã, Estados Unidos e Israel segue em curso, combinando ataques de alta frequência e baixo impacto, operações contra setores críticos e o uso crescente de IA para ampliar o alcance e a escala das ações.
Com informações de G1




