Adultos emocionalmente ausentes — por cansaço, estresse ou distração com celulares — têm impactado negativamente as interações essenciais ao desenvolvimento de bebês e crianças pequenas, afirmam especialistas entrevistados pelo G1. Para o professor Junlei Li, da Harvard Graduate School of Education, políticas públicas devem priorizar o fortalecimento das relações entre cuidadores e crianças na primeira infância.
Interações que constroem o cérebro
Segundo o texto, dos 0 aos 6 anos o cérebro forma até 1 milhão de novas conexões neurais por segundo, período de maior plasticidade da vida. Li afirma que, além de segurança, saúde e alimentação, “é a interação que realmente vai ajudar as crianças a se desenvolverem”. Por isso, sustenta, “a lógica, portanto, é que os apoios financeiros sejam direcionados para as famílias e para os professores”.
O pesquisador destaca que investimentos como licença-maternidade e paternidade e ações voltadas ao bem-estar docente ajudam a melhorar a presença emocional dos adultos. “Nenhum recurso visível, como um prédio mais moderno, vai substituir a importância de uma pessoa verdadeiramente envolvida”, diz Li em entrevista ao G1.
Quatro características de interações de qualidade
Li descreve quatro elementos essenciais para que as interações apoiem o desenvolvimento infantil: conexão, reciprocidade, inclusão e oportunidade de crescimento.
Conexão: refere-se ao grau de sintonia entre adulto e criança. Há três estados principais — distanciamento/hostilidade, desencontro emocional e o chamado “Modo Z” (sintonia mútua). A circulação entre esses estados é natural; o importante é a capacidade de “ruptura e reparo”, ou seja, sair do desencontro e voltar à sintonia.
Reciprocidade: envolve a alternância de papéis entre quem lidera ou segue na interação. Trocas equilibradas permitem aprendizagem ativa; interrupções tecnológicas podem transformar a dinâmica em simples unilateralidade ou em conformidade e desistência da criança.
Inclusão: é a atenção a quem participa menos das atividades. Profissionais e cuidadores atentos conseguem integrar crianças tímidas ou isoladas; o oferecimento de telas a quem está sozinho tende a reduzir essa participação.
Oportunidade de crescimento: refere-se ao equilíbrio entre desafio e suporte — o “andaime” que o adulto oferece para a criança superar uma tarefa e ganhar autonomia. O uso do celular pode levar o adulto a fazer a tarefa pela criança ou a ignorar pedidos de ajuda, desperdiçando o momento de aprendizado.
Tecnoferência e causas do problema
Pesquisadores chamam de “tecnoferência” as pequenas interrupções digitais — um olhar rápido para uma notificação ou responder a uma mensagem — que fragmentam a atenção compartilhada. O texto observa que o problema não é o aparelho em si, mas a forma como ele interrompe ciclos de interação que constroem circuitos neurais.
Especialistas também apontam que grande parte do tempo adulto é consumida por obrigações profissionais e preocupação financeira; professores frequentemente trabalham em mais de uma escola e enfrentam jornadas exaustivas. Juliana Prates, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia, afirma que colocar a primeira infância no centro das políticas públicas exige uma rede de apoio mais ampla — incluindo licença-maternidade e paternidade garantidas, número adequado de educadores, cidades mais acessíveis e medidas de proteção social. “A agenda de cuidado com as crianças implica não só cuidar delas, mas cuidar de quem cuida delas”, diz Prates.
Para Li, apoiar quem cuida é garantir que o “jogo de tênis” — o bebê “saca” e o adulto “devolve” — continue acontecendo. “O recurso mais importante que as crianças têm é aquela pessoa ao lado delas”, afirma o professor de Harvard.
Com informações de G1




