Alerta por email proibiu uso de informações privilegiadas em plataformas como Kalshi e Polymarket
Funcionários da Casa Branca receberam, em 24 de março, um email orientando-os a não usar informações internas para participar de apostas em mercados de previsão, plataformas que permitem negociar contratos sobre a ocorrência de eventos futuros. A mensagem foi enviada um dia após o presidente Donald Trump anunciar uma pausa de cinco dias em sua ameaça de atacar usinas e infraestrutura de energia do Irã.
O alerta faz referência a reportagens sobre o suposto uso de informação não pública para apostar em sites como Kalshi e Polymarket. A divulgação do email ao público foi noticiada primeiro pelo Wall Street Journal em 9 de abril. Em resposta, o porta-voz da Casa Branca, Davis Ingle, afirmou à BBC que qualquer sugestão sem provas de envolvimento de servidores públicos nessas práticas é jornalismo “infundado e irresponsável”. Ingle também ressaltou que os funcionários federais estão sujeitos às regras éticas do governo, que vedam o uso de informações privilegiadas para ganho financeiro, e afirmou que o interesse que guia o presidente é o bem-estar do povo americano.
A BBC procurou Kalshi e Polymarket por comentários sobre o caso, mas não obteve retorno até o momento.
A Polymarket entrou no centro das atenções em janeiro, quando uma aposta anônima rendeu quase US$ 500 mil (aproximadamente R$ 2,5 milhões) por um palpite sobre a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pouco antes do anúncio oficial. O responsável pela conta permanece desconhecido, identificado apenas por um código de blockchain, e o episódio levantou temor de que operações militares americanas pudessem ter sido antecipadas por atores com acesso a informações confidenciais.
Os mercados de previsão tiveram movimentação superior a US$ 44 bilhões (cerca de R$ 225 bilhões) no ano passado e abrangem apostas sobre os mais diversos temas, de esportes a decisões de bancos centrais e resultados eleitorais. Essas plataformas operam de modo semelhante a uma bolsa de valores: os usuários negociam entre si “contratos de evento” com desfecho em “sim” ou “não”, em vez de receber probabilidades definidas pela própria empresa, como nas casas de apostas tradicionais.
Por esse modelo, as empresas passaram a ficar sob supervisão da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), que regula derivativos. Em março, o congressista Ritchie Torres, do Comitê de Serviços Financeiros e membro do Partido Democrata, solicitou formalmente à CFTC investigação sobre apostas consideradas “suspeitas”. Também em março, líderes democratas apresentaram projeto de lei para proibir que mercados de previsão negociem apostas relacionadas a guerras ou ações militares.
Críticos argumentam que essas apostas podem violar normas financeiras dos EUA que vedam contratos sobre guerra, terrorismo, assassinato, jogos de azar ou outras atividades ilegais. O senador Andy Kim, democrata por Nova Jersey, afirmou que “corrupção e exploração estão prosperando” por meio de brechas nesses mercados, permitindo ganhos concentrados “às custas dos trabalhadores americanos”. Defensores dos críticos apontam ainda que plataformas estariam se apresentando como bolsas para escapar de regras e tributos aplicados às casas de apostas, o que tem gerado disputas judiciais entre Estados e empresas quanto à competência regulatória.
No Brasil, há relatos de uso dessas plataformas por meio de remessas em criptomoedas ou cartões internacionais. Segundo a Folha de S.Paulo, operadoras de apostas brasileiras que pagaram concessões de R$ 30 milhões pediram à Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda que bloqueie o funcionamento de empresas como a Kalshi por não terem sede nem outorga no país. Em entrevista ao Valor Econômico, a cofundadora da Kalshi, a mineira Luana Lopes Lara, disse que a empresa está em expansão e estuda abrir escritório no Brasil.
Reportagem adicional de Daniel Gallas e Natalie Sherman.
Com informações de G1




