Os negócios da família Trump cresceram rapidamente no exterior e em setores como criptomoedas nos primeiros meses do segundo mandato de Donald Trump, levantando questionamentos sobre potenciais conflitos de interesse e influências nas decisões de governo.
Presidentes americanos tradicionais costumavam evitar qualquer impressão de ganho pessoal ligado ao cargo: Harry Truman proibiu o uso de seu nome em empreendimentos após a presidência; Richard Nixon chegou a instalar grampos por receio de que um irmão se beneficiasse de sua posição; e George W. Bush vendeu todas as suas ações antes de assumir. O atual presidente seguiu outro caminho.
Comanda pela Trump Organization e administrada operacionalmente pelos filhos Eric e Donald Jr., a empresa da família abriu oito acordos internacionais pouco mais de um ano após o início do segundo mandato, afirmando que não negocia diretamente com governos estrangeiros. Ainda assim, analistas apontam ser difícil dissociar negócios em países com forte controle estatal da influência do ocupante da Casa Branca.
No Catar, um clube de golfe e residências de luxo com a marca Trump são construídos em parte por uma empresa estatal; no Vietnã houve desapropriações para um resort Trump que teve a assinatura de uma cerimônia com o vice-primeiro-ministro; e na Arábia Saudita um resort chamado “Trump Plaza” está em construção no Mar Vermelho por uma firma próxima à família real. A Trump Organization afirma que não fechou negócios com governos e descreve alguns acordos como colaborações.
Os filhos também ampliaram investimentos em criptomoedas e empresas com contratos ou interesse em contratos do governo. Antes da posse, a família vendeu quase metade da World Liberty Financial por US$ 500 milhões para uma companhia ligada ao governo dos Emirados Árabes Unidos; um fundo dos Emirados aplicou US$ 2 bilhões em uma moeda digital criada pela World Liberty, permitindo que a empresa investisse em títulos públicos e obtivesse receitas de juros.
A World Liberty arrecadou cerca de US$ 2 bilhões vendendo “tokens de governança” no ano passado; o bilionário Justin Sun foi um grande comprador, gastando US$ 75 milhões entre eleição e posse e US$ 200 milhões em moedas associadas a Trump que deram acesso a eventos exclusivos. A empresa também lançou moedas “meme” com o rosto do presidente, que renderam US$ 320 milhões em quatro meses, segundo levantamento da Chainalysis. Parte desses recursos foi para empresas ligadas a Trump.
Na esfera regulatória, o governo Trump reverteu uma regra da administração anterior sobre venda de chips a países como os Emirados, e o fundador da Binance, Changpeng Zhao, recebeu perdão presidencial após ter se declarado culpado por falhas de compliance — a defesa de Zhao negou que haja ligação entre negócios e perdão. A World Liberty também negou conflito de interesses.
Outros empreendimentos recentes incluem participação em uma empresa de drones armados com interesse em vender tanto ao Pentágono quanto a países do Golfo, investimentos em fabricante de motores de foguete, fornecedora de chips de inteligência artificial e empresa de análise de dados que receberam dezenas de milhões em recursos públicos. Eric e Donald Jr. afirmam investir em empresas nas quais acreditam; porta-voz de Donald Jr. disse que ele não “interage” com o governo sobre seus investimentos.
O patrimônio de Trump foi estimado pela revista Forbes em US$ 6,3 bilhões, aumento de 60% em relação ao período anterior ao retorno à presidência. A Casa Branca e a Trump Organization dizem que agem de forma ética e negam conflitos de interesse; a porta-voz Anna Kelly afirmou que os bens de Trump estão sob administração dos filhos e que ele “não tem envolvimento” nos negócios da família. O próprio presidente declarou ao The New York Times: “eu descobri que ninguém se importava, e eu posso”, referindo-se a uma exceção na lei federal.
Especialistas em ética governamental e historiadores afirmam que os conflitos se acumularam e tornaram-se mais visíveis no segundo mandato. O historiador Julian Zelizer, da Universidade de Princeton, disse que não vê linha clara entre decisões políticas, cálculos eleitorais e interesse familiar. Timothy Naftali, da Universidade Columbia, afirmou que restrições que existiam no primeiro mandato parecem ter desaparecido.
Nos primeiros meses do segundo ano de mandato, a Trump Organization anunciou um terceiro acordo com a Arábia Saudita em menos de um ano, desta vez com uma empresa do fundo soberano do país para projetos perto de Riad. A empresa mantém que não faz negócios com entidades governamentais, sem comentar especificamente esse caso.
Enquanto isso, a volatilidade das criptomoedas afetou valores de ativos ligados à família: ações da American Bitcoin e as moedas meme perderam cerca de 90% de seu valor desde o pico, segundo registros. Ainda assim, atividades ligadas à marca Trump seguem gerando receita e contratos, e as discussões sobre ética e conflitos de interesse permanecem em curso.
Com informações de G1




