19.6 C
Uberlândia
sexta-feira, outubro 23, 2026

Candidatos relatam silêncio após envio de currículos; empresas usam IA para filtrar perfis

Muitos candidatos afirmam não receber retorno após enviar currículos e apontam ferramentas de inteligência artificial (IA) como parte do motivo. Empresas e plataformas passaram a empregar sistemas automatizados que organizam, priorizam e filtram perfis antes de qualquer análise humana, o que tem dificultado o avanço de profissionais mesmo quando têm formação e experiência compatíveis com as vagas.

O caso da engenheira de produção Samanta Santos ilustra a dificuldade. Com formação técnica, experiência em áreas diversas e disponibilidade para vários modelos de contratação, ela diz ter mandado candidaturas que nunca tiveram resposta. Samanta relata processos iniciados em outubro sem retorno e o encerramento, em uma mesma semana, de três seleções das quais participava; acrescenta ainda que nenhum processo vinculado a plataformas digitais avançou para ela.

Pesquisas e dados de mercado ajudam a contextualizar a situação. Segundo levantamento do LinkedIn, seis em cada dez profissionais no Brasil consideram que procurar emprego ficou mais difícil no último ano. Entre os motivos citados estão o aumento da concorrência (55%) e a percepção de processos mais exigentes (50%). A mesma pesquisa aponta que 29% dos brasileiros não compreendem como a IA é usada nos recrutamentos e 28% desconfiaram da justiça das avaliações.

A adoção de IA em recrutamento cresceu nos últimos anos: mais da metade das organizações ouvidas pela Society for Human Resource Management (SHRM) relatou ter usado tecnologia em processos seletivos em 2025. Paralelamente, candidatos também recorrem a ferramentas — estima-se que cerca de um terço dos usuários do ChatGPT tenha utilizado o chatbot para apoiar a busca por emprego.

Com nível de desemprego nos menores patamares da série histórica do IBGE, houve aumento da mobilidade profissional e, consequentemente, do número de candidatos por vaga. Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina, afirma que as empresas hoje escolhem entre profissionais muito qualificados, o que torna decisões mais criteriosas e lentas.

Plataformas e especialistas apontam que a IA pode melhorar a eficiência da triagem: entre profissionais de atração de talentos que já testaram ou integraram IA generativa, 70% dizem que a tecnologia aumenta eficiência, 47% avaliam que anúncios de vagas ficam mais assertivos e 33% percebem melhora na qualidade das escolhas. Em grandes seleções, a automatização permite processar milhares de candidaturas rapidamente — Jhennyfer Coutinho, chefe da experiência para pessoas candidatas da Gupy, cita casos que chegam a 17 mil inscritos em dois dias —, mas, quando há volume alto, quem aparece nas últimas posições dificilmente será avaliado.

Outro efeito observado é o deslocamento do gargalo para etapas que dependem exclusivamente de decisão humana, como entrevistas e validações internas, que ficam sujeitas a agendas, alinhamentos e cautela diante do custo de uma contratação equivocada, destaca Thomas Costa, head de growth da Pandapé e da Redarbor. Em alguns casos, empresas mantêm vagas abertas sem movimento para reaproveitar candidatos futuramente, o que contribui para a sensação de “vagas fantasmas”.

Transparência e comunicação como resposta

Para especialistas ouvidos, acelerar processos seletivos depende mais de decisões internas das empresas do que de novas tecnologias. Transparência sobre fases, prazos e critérios e comunicação mínima aos candidatos são apontadas como medidas que reduzem frustração. A Gupy reconhece o impacto emocional da falta de retorno e, desde o fim de 2024, realiza fechamento trimestral de vagas inativas: a empresa identificou 24 mil vagas sem movimentação que somavam cerca de 4 milhões de candidaturas. Em 2024, a plataforma registrou 36 milhões de inscrições para aproximadamente 1 milhão de vagas.

Enquanto candidatos como Samanta seguem na busca, conciliando testes, formulários e rotinas pessoais — ela diz estar há quase seis meses em processos seletivos não conclusivos, além de cuidar de dois filhos pequenos —, especialistas ressaltam que feedbacks, mesmo breves, podem reduzir o desgaste e devolver a sensação de acompanhamento humano.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
Últimas Notícias
Veja também