Relatório aponta dependência e vulnerabilidade do Brasil a choques externos
Um relatório da Cogo Inteligência em Agronegócios, assinado por Carlos Cogo, mostra que cerca de 45% dos fertilizantes importados pelo Brasil têm origem em países com elevada propensão à instabilidade política ou violência geopolítica, entre eles Rússia, Bielorrússia, Irã e Nigéria. Em 2025, o país importou 88% dos adubos utilizados nas lavouras, totalizando um recorde de 45,5 milhões de toneladas, segundo o documento.
Com esse volume, o Brasil passou a ser o maior importador mundial de matéria-prima para fertilizantes. A consultoria alerta que essa dependência internacional expõe o agronegócio nacional a aumentos abruptos de preços e a interrupções de fornecimento, efeitos que já se manifestaram em episódios recentes.
O relatório lembra que a guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, foi o choque mais severo até então. A Rússia chegou a responder por cerca de 23% das importações brasileiras de fertilizantes, e as sanções aplicadas na sequência elevaram os custos do insumo para produtores. Naquela ocasião, condições climáticas favoráveis possibilitaram uma safra recorde e contiveram o repasse de preços ao consumidor.
Mais recentemente, o conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel no Oriente Médio provocou nova alta nos preços. Segundo a Cogo, a paralisação de fábricas iranianas de ureia — cuja produção é estimada em cerca de 9 milhões de toneladas por ano — e a interrupção do fornecimento de gás israelense ao Egito reduziram em aproximadamente 20% a oferta global de fertilizantes nitrogenados. Entre o início da guerra e 16 de abril, o preço da ureia subiu 67%, de acordo com dados da StoneX Brasil.
O estudo detalha a dependência por tipo de nutriente. No caso do potássio, o Brasil produz apenas cerca de 4% do que consome e importa 96%, principalmente cloreto de potássio de países como Canadá, Rússia e Bielorrússia. Apesar de reservas conhecidas, como a Mina de Autazes no Amazonas — que poderia suprir até 20% da demanda nacional — a exploração em escala comercial enfrenta entraves de licenciamento ambiental e questões relacionadas a territórios indígenas.
Para o nitrogênio, a dependência é estimada em torno de 95%, com a ureia sendo quase totalmente importada. A produção doméstica é desafiante devido ao alto custo do gás natural, insumo essencial no processo Haber-Bosch. A Cogo registra que a venda, em 2013, das unidades de fertilizantes nitrogenados (FAFENs) pela Petrobras reduziu a capacidade nacional; em janeiro de 2026, a Petrobras anunciou a retomada das operações das FAFENs na Bahia (Camaçari) e em Sergipe (Laranjeiras) e aprovou a reativação da unidade Araucária Nitrogenados (ANSA), no Paraná.
Já o fósforo apresenta dependência menor, na ordem de 72%. O país explora reservas de rocha fosfática em Minas Gerais, Goiás e Ceará; entre os projetos citados está a mina de Itataia, em Santa Quitéria (CE), com reservas estimadas em 8,9 milhões de toneladas. O relatório também menciona o complexo da EuroChem em Serra do Salitre (MG), inaugurado em 2024, com capacidade de 1 milhão de toneladas de fertilizantes fosfatados por ano destinados ao mercado interno.
O documento conclui descrevendo como esses fatores — origem dos fornecedores, estrutura de produção interna e custo do insumo energético — determinam a exposição do Brasil a flutuações internacionais de oferta e preço.
Com informações de G1




