Presidente Lula se encontrará com Donald Trump em Washington na quinta-feira (7/5)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fará uma visita a Washington na quinta-feira, 7 de maio, para se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A viagem, anunciada de última hora, será a segunda ida de Lula à capital norte-americana durante seu terceiro mandato e a primeira visita oficial ao atual ocupante da Casa Branca.
Fontes ouvidas pela BBC News Brasil, em caráter reservado, informaram que a equipe econômica brasileira preparou ao menos três temas centrais para ser levados ao encontro: as investigações dos Estados Unidos sobre o sistema de pagamentos Pix; a redução ou eliminação das tarifas adicionais impostas a exportações brasileiras (o chamado “tarifaço”); e investimentos em minerais críticos.
Essa agenda vem sendo alinhada por técnicos de pelo menos quatro ministérios: Fazenda; Justiça e Segurança Pública (MJSP); Relações Exteriores (MRE); e Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Ainda não está definido se todos os pontos serão tratados durante a reunião, decisão que, segundo uma das fontes, dependerá da “temperatura” que a Casa Branca der ao encontro. A Casa Branca não se pronunciou oficialmente sobre a visita até o momento.
Pix
O governo brasileiro tem se dedicado à questão do Pix há meses. Em julho do ano passado, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) abriu uma investigação com base na seção 301 da Lei de Comércio dos EUA sobre práticas comerciais do Brasil, incluindo o Pix entre os itens sob apuração. Segundo o governo americano, o modelo de pagamentos instantâneos do Banco Central poderia prejudicar empresas dos EUA que atuam no mercado de meios de pagamento.
O Brasil respondeu à investigação em agosto de 2025, negando discriminação contra empresas norte-americanas e ressaltando que empresas dos EUA, como o Google, usam o Pix. O tema reapareceu em março de 2026, quando o Pix foi citado em relatório do USTR de 31 de março e aparece três vezes no National Trade Estimate Report de 2026, que lista barreiras comerciais percebidas em mais de 60 países. No documento, o USTR afirma, entre outras coisas, que “o Banco Central do Brasil criou, detém, opera e regula o Pix” e que há exigência de uso por instituições com mais de 500.000 contas.
Especialistas consultados pela BBC News Brasil em abril apontaram que os EUA não teriam jurisdição direta para atuar contra o Pix, e que medidas de retaliação, caso adotadas, se dariam na esfera comercial, conforme a Lei de Comércio de 1974.
Politicamente, o governo brasileiro tem defendido o Pix como questão de soberania. Em início de abril, durante evento na Bahia, Lula afirmou: “O Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a gente mudar o Pix, pelo serviço que ele está prestando à sociedade brasileira”.
Tarifas
Embora parte do “tarifaço” tenha sido retirada nos últimos meses, técnicos brasileiros buscam em Washington diminuir ou eliminar taxas remanescentes que incidem sobre exportações brasileiras. O MDIC estima que ao menos 29% das exportações para os EUA ainda estejam sujeitas a tarifas adicionais.
Em abril de 2025, os Estados Unidos impuseram uma tarifa linear de 10% a praticamente todos os países. Em julho de 2025, a administração Trump aplicou uma tarifa adicional de 40% sobre diversos produtos brasileiros, medida justificada à época pelos EUA como resposta ao tratamento judicial do ex-presidente Jair Bolsonaro. A partir de setembro de 2025 houve uma reaproximação entre Lula e Trump, com encontros em Nova York e outras conversas, e em novembro do mesmo ano parte das tarifas foi retirada. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA classificou como ilegal parte do “tarifaço”, o que levou a nova redução, seguida pela implementação de uma tarifa linear de 15% sobre importações globais.
Apesar de estudos, como o do Global Trade Alert, indicarem que o Brasil foi beneficiado pela redução das taxas, as equipes técnicas brasileiras querem foco em segmentos estratégicos, como máquinas industriais e revestimentos. Dados da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) apontam que as exportações brasileiras aos EUA somaram US$ 7,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026, queda de 18,7% ante o mesmo período de 2025, e representaram 9,5% das exportações do país — a menor participação desde 1997.
Minerais críticos
O acesso a minerais críticos, em especial terras raras, também figura na pauta. Vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) comentou que há espaço para tratar “das big techs, terras raras e minerais estratégicos”, segundo o jornal Valor Econômico.
Os Estados Unidos buscam maior facilidade de acesso a projetos de mineração, menos barreiras a investimentos estrangeiros e agilização de licenciamento ambiental. O governo brasileiro, por sua vez, defende maior controle estatal sobre esses projetos e exige que investimentos considerem beneficiamento no país, em vez da simples exportação de matéria-prima.
Minerais como lítio, cobalto e nióbio são usados em baterias, ímãs para turbinas eólicas, chips eletrônicos, aviões e equipamentos militares. Estudos recentes indicam que o Brasil tem as maiores reservas de terras raras do mundo depois da China. Desde o início do segundo mandato de Trump, os EUA têm buscado reduzir dependência chinesa — atualmente estimada em cerca de 60% das reservas conhecidas e 90% do refino — e passaram a ver o Brasil como parceiro potencial.
Os Estados Unidos enviaram uma proposta de memorando de entendimento ao Brasil no início de 2026, que não havia sido respondida até o começo de abril. Enquanto isso, empresas e fundos americanos já avançaram em investimentos — entre eles, a compra, anunciada em abril, da mineradora Serra Verde pela USA Rare Earths por cerca de US$ 2,8 bilhões; antes disso, a Corporação Internacional de Desenvolvimento dos EUA (DFC) havia investido US$ 565 milhões.
Também houve iniciativas de cooperação em nível estadual: no primeiro trimestre de 2026, o governo de Goiás firmou acordo com os EUA quando Ronaldo Caiado (PSD) ainda era governador. Interlocutores do presidente brasileiro alertam que acordos estaduais podem ser interpretados como tentativa de influenciar a política nacional sobre minerais críticos, tema em debate no Congresso Nacional.
A definição final dos temas a serem efetivamente tratados na agenda de Washington será fechada pela delegação brasileira próximo ao embarque de Lula.
Com informações de G1




