TRANSMISSÃO: Record
Programas de renegociação aliviam no curto prazo, mas podem perpetuar hábito do crédito, avalia pesquisador
O geógrafo Kauê Lopes dos Santos, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor do livro Parcelado (Editora Fósforo), afirmou que iniciativas do governo para renegociar dívidas, como a segunda edição do Desenrola lançada oficialmente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 4 de maio, podem funcionar como alívio temporário e estímulo ao consumo, mas também contribuir para a formação de uma cultura de resolução imediata sem atacar as causas estruturais do endividamento.
Segundo Lopes dos Santos, os programas de renegociação mostram que o Estado reconhece a gravidade do problema e atuam como uma injeção de renda que facilita a retomada do consumo. A versão 2.0 do Desenrola prevê descontos e condições de parcelamento com juros menores para pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos, equivalente a R$ 8.105. A iniciativa é uma reedição do pacote implementado entre 2023 e 2024. Bancos informaram que só iniciarão as operações após ajustar seus sistemas.
O pesquisador alerta, porém, para efeitos de curto e médio prazo: “pode criar uma lógica de resolver sempre no curto prazo, sem buscar entender as questões mais estruturais”, disse Lopes dos Santos em entrevista à BBC News Brasil. Entre os riscos apontados está a consolidação de uma prática de renegociação recorrente que complexifica o controle orçamentário das famílias.
Dados oficiais reforçam a dimensão do problema. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostrou que 80,4% das famílias estavam endividadas em março, o maior percentual desde o início da série histórica em 2010. Pesquisa da Serasa registrou 81,7 milhões de inadimplentes em fevereiro, equivalente a 49,9% da população adulta, com dívida média por pessoa de R$ 6.598,13.
Em sua pesquisa de campo na periferia de São Paulo, iniciada no mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), Lopes dos Santos observou que o parcelamento tornou-se central na organização do orçamento doméstico. O consumidor de baixa renda frequentemente compromete receitas futuras ao parcelar bens como eletrodomésticos, eletrônicos e até despesas do dia a dia, o que gera o que o pesquisador definiu como endividamento crônico.
O pesquisador também citou fatores que agravam a situação, como a oferta de parcelas longas com juros altos articuladas entre varejo e sistema financeiro, a obsolescência programada e a publicidade que estimula novas compras. Nos últimos anos, a expansão das plataformas de apostas (“bets”) passou a contribuir para a deterioração das finanças familiares, forçando muitas pessoas a recorrer a crédito mais caro, como cheque especial e cartão de crédito.
Lopes dos Santos destacou ainda que medidas complementares, como educação financeira crítica e aumento de renda, são necessárias para enfrentar o problema de forma duradoura, mas reconheceu a complexidade de implementar mudanças que atuem de maneira ampla e combinada.
Com informações de G1




