Transmissão: Globo
Letra escolhida pela ABL e gritos da USP deram forma ao “Parabéns”
A versão hoje mais difundida do “Parabéns a você” no Brasil tem origem em decisões tomadas na década de 1940 pela Academia Brasileira de Letras e em tradições de estudantes da Universidade de São Paulo (USP). A letra oficial adotada na época foi uma trova escrita pela paulista Bertha Celeste Homem de Mello, escolhida em concurso nacional de rádio entre mais de 5 mil composições.
Bertha, farmacêutica, inscreveu sua quadra — uma trova de quatro versos em redondilha maior (sete sílabas por verso) — no certame que pretendia substituir a versão em inglês então cantada no país. A composição da autora foi selecionada por um júri que incluía nomes como Cassiano Ricardo, Múcio Leão e Olegário Mariano.
Mais de 80 anos depois, a melodia marca o ápice de aniversários no Brasil e a letra permanece quase intacta em comparação ao original adotado pela ABL. A linguista Luísa Albuquerque avalia que as alterações observadas na versão popular, como a mudança para “muitas felicidades”, correspondem a uma adaptação natural ao uso cotidiano: a modificação facilita a progressão lógica do verso, tornando a forma mais fluida para quem canta.
Em 1997, aos 95 anos, Bertha afirmou em entrevista à TV Globo que se emocionava ao constatar que seus versos eram entoados por pessoas de todo o país, mesmo quando a versão cantada publicamente apresentava variações não oficiais; ela mantinha, porém, sua própria versão nas celebrações familiares.
O trecho complementar amplamente usado nas festas — “É pique, é pique / É hora, é hora, é hora / Rá-tim-bum” — remonta à década de 1930 e nasceu entre alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da USP. Esses versos são gritos de guerra: “É pique” estaria ligado ao apelido Pic-Pic (Ubirajara Martins de Souza), associado ao barulho de uma tesoura; “É hora” refere-se à espera de meia hora por uma nova rodada de bebida em bares próximos à faculdade; e “rá-tim-bum” teria origem em “ra-já-tim-bum”, referência a um rajá que visitou a turma, com o “já” sendo eliminado ao longo do tempo.
Variações regionais existem — no Rio de Janeiro, por exemplo, “pique-pique” pode virar “big-big” — e também circulam versões com linguagem obscena. A melodia que acompanha o canto no Brasil, por sua vez, foi composta pelas irmãs americanas Mildred e Patty Smith Hill no final do século 19 e é conhecida internacionalmente como “Happy Birthday To You”, cuja letra em inglês é mais simples e menos efusiva que as versões brasileiras.
O processo de seleção da letra e os elementos estudantis incorporados ao canto mostram como práticas culturais e instituições — como a Academia Brasileira de Letras e a USP — contribuíram para consolidar a forma do “Parabéns” que se canta no Brasil hoje.
Com informações de G1




