Resumo: Terras raras são um conjunto de 17 elementos essenciais à tecnologia moderna. O Brasil tem a segunda maior reserva mundial, o que o coloca no centro de uma disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. A demanda crescente por motores de carros elétricos, turbinas eólicas, celulares e equipamentos de defesa torna esses minerais estratégicos, embora o país ainda não domine o processamento industrial necessário para agregar valor.
O que são e por que importam
As chamadas terras raras reúnem 17 elementos da Tabela Periódica: 15 lantanídeos — do lantânio ao lutécio — além do escândio e do ítrio, que costumam aparecer juntos nas mesmas jazidas. Apesar do nome, esses elementos não são literalmente “terras” nem excepcionalmente raros na crosta terrestre; ficam, porém, misturados entre si nas rochas, o que dificulta a separação industrial.
Elementos como neodímio, praseodímio e disprósio são vitais para criar superímãs, reduzir o peso de motores elétricos e aumentar a eficiência de dispositivos eletrônicos. Outros, como európio e térbio, são usados em telas para melhorar brilho e cor. Por isso são descritos como “vitaminas” da indústria tecnológica: necessários em pequenas quantidades, mas insubstituíveis sem perda significativa de desempenho.
Processamento complexo e caro
O custo alto não vem da escassez geológica, mas do processamento. Separar os elementos exige etapas químicas repetitivas, consumo intenso de reagentes, infraestrutura controlada e tratamento rigoroso de resíduos, incluindo controle de radioatividade quando há tório e urânio em minerais como a monazita.
As principais etapas são:
- Concentração física do minério — extração e concentração do material valioso;
- Ataque químico e dissolução — transformação do concentrado em solução usando ácidos e reagentes caros;
- Remoção de impurezas e controle de radioatividade;
- Separação individual — extração por solventes repetida dezenas ou centenas de vezes para obter purezas comerciais;
- Precipitação e refino final — recuperação e produção de óxidos como óxido de neodímio.
Elementos classificados como “pesados” (ex.: disprósio, térbio, lutécio) são mais caros porque exigem mais estágios de separação; o óxido de lutécio pode variar entre US$ 5 mil e US$ 15 mil por quilo.
Custo ambiental
A mineração e o refino de terras raras impõem impactos ambientais relevantes: uso intensivo de substâncias tóxicas, geração de resíduos radioativos, alto consumo de água e energia, desmatamento e risco de contaminação de cursos d’água. Argilas iônicas, um tipo de depósito encontrado no Brasil, são mais fáceis de explorar quimicamente, mas podem causar lixiviação e impacto ambiental elevado.
Por que o Brasil é promissor
O país concentra a segunda maior reserva mundial devido a uma combinação rara de origem vulcânica, clima tropical e tempo geológico. Exemplos importantes estão na Província Ígnea do Alto Paranaíba, com o Cinturão de Araxá-Catalão, apontado como a maior faixa contínua de jazidas de terras raras pesadas fora da China. Além das rochas carbonatíticas, depósitos de argila iônica também aumentam o potencial de exploração.
Desafio da industrialização
Apesar das reservas, o Brasil ainda exporta principalmente minério bruto e não domina em escala industrial a purificação e o refino, etapas em que a China investiu por décadas e hoje responde por cerca de 90% do processamento mundial. Especialistas alertam que, sem desenvolvimento da cadeia de valor, o país corre o risco de repetir o padrão de exportar matéria-prima e importar produtos finalizados mais caros.
Guerra comercial e interesses internacionais
O domínio chinês das refinarias transformou acesso a terras raras em questão geopolítica. Para reduzir dependência, os Estados Unidos buscam parceiros fora da China — e o Brasil aparece como fornecedor estratégico. A relação entre os países apareceu em debates no Congresso e nas conversas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O presidente brasileiro afirmou, nesta segunda-feira (18), esperar que Trump diminuía atritos com o líder chinês Xi Jinping e passe a cooperação com o Brasil em projetos do setor.
Antes de encontro bilateral na Casa Branca, realizado em uma quinta-feira (7), a Câmara dos Deputados aprovou em regime de urgência a criação da Política Nacional para a Exploração de Minerais Críticos, que prevê um fundo de até R$ 5 bilhões para atrair empresas com tecnologia de processamento, com ênfase em transferência tecnológica e evitar acordos de exclusividade.
O futuro do setor no Brasil depende, segundo especialistas, da capacidade de transformar a vantagem geológica em indústria nacional de refino e aplicação, reduzindo a dependência externa e agregando valor ao minério extraído.
Com informações de G1




