Artista e curadora apresenta série sobre talentos negros e comanda Pavilhão do Brasil em Veneza
Aos 59 anos, a artista e educadora Rosana Paulino, nascida na Zona Norte de São Paulo, atua simultaneamente como curadora e expositora em eventos nacionais e internacionais. No último Dia da Consciência Negra, ela participou do lançamento de minidocumentários sobre 20 artistas negros no Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR), destacando a qualidade e a formação desses criadores e afirmando que a presença deles no cenário artístico é parte de um movimento histórico.
Filha de uma faxineira e de um pintor de paredes, Paulino soma cerca de 30 anos de carreira e representa o Brasil na 61ª Bienal Internacional de Veneza ao lado da pintora Adriana Varejão. A mostra nacional, intitulada “Comigo Ninguém Pode”, traz obras que discutem a presença negra na formação cultural do país e inclui peças de Paulino inspiradas na série Senhora das Plantas, em que mulheres aparecem em metamorfose com elementos vegetais que simbolizam proteção e estratégias de sobrevivência.
O Pavilhão do Brasil em Veneza, nesta edição composta apenas por mulheres, tem curadoria de Diane Lima, a primeira mulher negra a assumir o cargo. Na entrada, a instalação Tecelãs (2003), com pequenas esculturas em faiança, terracota, algodão e fios sintéticos, dá as boas-vindas aos visitantes. Para a Bienal, Paulino também produziu a escultura Crisálida (2026), em bronze, baseada em desenho de uma gravura feita há duas décadas.
Ao longo da trajetória, Paulino realizou exposições individuais em cidades como Buenos Aires, Bruxelas e Nova York — onde apresentou um painel de nove metros na High Line — e teve obras incorporadas ao acervo da Tate Modern e do MoMA. Entre os reconhecimentos, recebeu o Munch Award em 2024 e o Jane Lombard Prize for Art and Social Justice, este último relacionado ao livro História Natural (2016), no qual ela investiga ligações entre ciência e violência racial.
Formada em artes visuais pela USP, com doutorado pela Escola de Comunicações e Artes da mesma universidade, Paulino também estudou gravura no London Print Studio com bolsa da Capes. A artista desenvolve trabalhos em desenho, pintura, bordado, gravura, colagem, escultura e instalação, abordando temas como a posição da mulher negra, ancestralidade e as marcas do colonialismo e da escravidão, além de desconstruir teorias racistas da pseudociência.
Apesar de convites de instituições estrangeiras, ela mantém residência e ateliê em Pirituba, onde pretende transformar seu espaço em um centro de pesquisa voltado a estudantes e jovens artistas, com biblioteca especializada em arte e estudos da diáspora. Paulino afirma não concordar com a ideia de ganhar dinheiro e deixar sua região, e vem atuando também como orientadora de uma nova geração de artistas afro-brasileiros, muitos dos quais a veem como referência e mentora.
Seu percurso inclui obras formativas como a Parede da Memória, criada durante a graduação na USP e hoje no acervo da Pinacoteca de São Paulo, além da participação, em 2022, na mostra principal da Bienal de Veneza, antes de integrar o Pavilhão do Brasil.
Com informações de G1




