João Pessoa tem registrado aumento expressivo no custo de vida e na valorização imobiliária após a chegada de um número crescente de moradores, especialmente jovens em busca de qualidade de vida e oportunidades de investimento, afirmam moradores, corretores e pesquisadores.
Rebeca Cirino, publicitária de 39 anos, relata que quando voltou à capital da Paraíba há quatro anos encontrou uma cidade menos movimentada do que São Paulo e com custo de vida anteriormente mais baixo. Desde então, porém, ela percebeu mudanças acentuadas nos preços, com aumento mais intenso nos últimos dois anos. Como exemplo, cita a elevação do valor do coco, que em 2022 custava R$ 2 e hoje é encontrado entre R$ 6 e R$ 7.
O marido dela, o advogado Ezequiel Ribeiro, de 35 anos, também relata elevação das despesas cotidianas, incluindo mercado e restaurantes, e diz que a busca por moradia se tornou mais difícil diante da valorização. Segundo o índice FipeZap, o preço médio do metro quadrado em João Pessoa subiu de R$ 4,5 mil em 2019 para R$ 8 mil em 2026.
Além do custo de moradia, moradores notam alterações na mobilidade urbana. Rebeca afirma que trajetos curtos passaram a demorar muito mais em horários de pico e Ezequiel aponta que bairros como o Bessa, na zona Norte, sofreram ocupação intensa, aumentando o trânsito local.
O crescimento populacional ajuda a explicar parte dessas mudanças. Dados do último Censo do IBGE mostram que João Pessoa foi a quinta capital que mais ganhou habitantes no país, com taxa média anual de 1,19% e um acréscimo de 110 mil moradores em 12 anos, resultado que elevou a população estimada para 833.932 habitantes.
O ambientalista Marco Túlio Gusmão, de 58 anos, que vive na cidade há mais de quatro décadas, destaca a valorização imobiliária como um dos vetores das transformações. João Pessoa registrou alta de 15,15% no preço dos imóveis, a segunda maior entre as capitais, atrás apenas de Salvador (16,25%), e foi a maior variação anual desde o início do monitoramento pelo Índice FipeZAP.
Especialistas que acompanham o planejamento urbano afirmam que o crescimento segue um modelo voltado ao mercado imobiliário. O geógrafo Alexandre Sabino do Nascimento, da UFPB, afirma que decisões recentes no Plano Diretor reduziram instrumentos de participação popular e favoreceram investimentos imobiliários. Segundo ele, há um déficit habitacional estimado em cerca de 50 mil domicílios, com muitas famílias comprometendo mais de 30% da renda com aluguel, além de compra de terrenos por incorporadoras para formar “bancos de terra”.
Do lado do mercado, o corretor Caio César de Queiroz Ferreira, que atua há 15 anos em imóveis de alto padrão, observa mudança no perfil dos compradores: além de aposentados, aumenta a presença de profissionais jovens e economicamente ativos, muitos em regime de trabalho remoto. Em março, a média do metro quadrado na cidade atingiu R$ 8 mil; em Cabo Branco, bairro de orla, o preço chegou a R$ 12,3 mil, alta de 10,4% em 12 meses. Ferreira relata reajustes de aluguel que chegaram a 20%–30% em áreas valorizadas.
O crescimento urbano também expõe limitações na infraestrutura básica, em especial no saneamento. Segundo o Instituto Trata Brasil, 72,36% do esgoto da cidade é coletado e encaminhado a estações de tratamento; o restante tem destino incerto. O pesquisador Joácio Morais Júnior, coordenador do laboratório de Sistemas Ambientais Urbanos da UFPB e presidente do Instituto ARBOR, afirma que a expansão não foi acompanhada pela rede de esgotamento, o que pode provocar transbordamentos, lançamento irregular no ambiente e riscos a ecossistemas como recifes e manguezais.
Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) indicam aumento da frota de veículos em João Pessoa, de 474 mil em 2024 para mais de 501 mil em 2026, o que reforça a pressão sobre a mobilidade.
A Prefeitura de João Pessoa afirmou, em nota, que tem investido em obras de mobilidade para adequar a infraestrutura à expansão, citando obras como o Complexo Viário Beira Rio e novos corredores de transporte coletivo, além de projetos de integração viária e incentivo ao turismo. A administração não respondeu, porém, a questionamento sobre alegações de que a expansão estaria organizada em função de interesses do mercado imobiliário. A Cagepa também não respondeu ao contato da reportagem sobre o saneamento.
Especialistas ouvidos defendem maior fiscalização de ligações clandestinas, ampliação da rede de coleta, monitoramento da qualidade da água e adoção de soluções alternativas em áreas não atendidas, além de revisão de parâmetros de ocupação e proteção de áreas ambientais sensíveis como medidas necessárias para conciliar crescimento e preservação ambiental.
Com informações de G1




