Língua criada por trabalhadores de Itabira serviu para driblar patrões e virou patrimônio cultural
A “Guinlagem do Camaco” é uma linguagem de origem itabirana, surgida no início do século 20 entre trabalhadores das minas de ferro de Itabira, cidade de 113 mil habitantes na Região Central de Minas Gerais. Desenvolvida para permitir que os operários se comunicassem sem serem compreendidos pelos patrões — em grande parte ingleses —, a prática consiste, em essência, na inversão dos fonemas das sílabas das palavras, produzindo frases de difícil entendimento para quem não domina o sistema.
Exemplos dessa inversão são recorrentes entre falantes. A expressão “Sovê lafa guinlagem” corresponde a “Você fala linguagem?”, enquanto “Guinlagem do Camaco” equivale a “Linguagem do Macaco”. A famosa abertura do poema “E agora, José”, de Carlos Drummond de Andrade, vira na prática local “E aroga, Sujé?”. Há, porém, irregularidades: palavras curtas às vezes sofrem outras transformações, como “Não” tornando-se “ônis” e “Qualquer” virando “ualquiquelque”.
Para moradores e pesquisadores, o Camaco teve e tem funções além do jogo linguístico. O músico Rafael Formiga afirma que a inversão cria sentidos internos e permite que falantes se entendam mesmo com variações; o historiador e museólogo Paulo Assuero destaca o caráter de construção coletiva e de resistência da linguagem, lembrando que muitos dos primeiros falantes eram recém-libertos e em grande parte analfabetos que precisavam se organizar sem serem interceptados pelos patrões.
A partir das minas, o Camaco passou a circular pelas ruas de Itabira, sendo usado por jovens para conversar sem que pais ou visitantes entendessem, e portar um tom de gozação com forasteiros nas décadas de 1960 e 1970. Assuero relata casos em que usou a língua em sala de aula para surpreender alunos que acreditavam estar se comunicando sem ser descobertos.
Na família de Mauro de Alvarenga, o Camaco foi transmitido de geração em geração: seus pais o utilizavam para não ser compreendidos pelos filhos; o avô, ferreiro de locomotivas de mineração, levou a prática para o lar. O cineasta Breno Alvarenga transformou essa história em curta-metragem: o documentário “Camaco” (2022) reconstrói a dimensão política e de resistência da linguagem e foi premiado no Festival de Gramado nas categorias “Melhor Curta Júri da Crítica” e “Melhor Montagem”.
O linguista Geuderson Marchiori, que pesquisou o tema em dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), rastreou falantes até a década de 1920 e caracteriza o Camaco como linguagem secreta ou jargão técnico com função agregadora e de proteção, comparação feita à noção de quilombo como local de reorganização e segurança para populações minorizadas. Marchiori também observa diferentes interpretações para o termo “macaco” no nome da linguagem, incluindo associações a esperteza e a figuras menores e astutas presentes em narrativas de origem africana.
Embora Carlos Drummond de Andrade tenha nascido em Itabira em 1902 e a cidade seja frequentemente associada ao poeta, não há registros conhecidos de menções ao Camaco em suas crônicas ou poemas. Drummond deixou Itabira aos 18 anos, indo primeiro para Belo Horizonte e depois para o Rio de Janeiro, e manteve a cidade sempre presente em sua obra e memórias.
Atualmente, o Camaco enfrenta desafios de sobrevivência: existem poucos falantes e, com as transformações tecnológicas e sociais, seu uso tem diminuído. Em 2023, Itabira registrou a linguagem como patrimônio cultural imaterial, mas medidas concretas de preservação ainda não foram implementadas.
A economia local também passa por incertezas: mais de 80% do PIB municipal depende da mineração e estimativas apontam que as minas da região devem ser paralisadas em 2052. Para alguns moradores, a valorização do Camaco e do potencial cultural de Itabira pode ser parte de uma tentativa de reinventar a cidade após o fim da exploração intensiva do minério.
Com informações de G1




