Um levantamento realizado pela Quaest a pedido do instituto More in Common indica que a maioria dos jovens brasileiros de 16 a 24 anos se identifica como conservadora, mas em proporções inferiores às observadas entre faixas etárias mais avançadas.
Segundo a pesquisa, 68% dos homens e 62% das mulheres nessa faixa etária disseram se identificar com o conservadorismo. Ainda assim, os índices de adesão ao conservadorismo são menores entre os jovens do que entre as gerações mais velhas, conforme demonstrado pelos gráficos divulgados pelo estudo.
O levantamento apresenta uma juventude que ocupa posição intermediária no debate sobre costumes: os jovens mostram maior apoio a direitos iguais para mulheres, mas, especialmente entre homens, há resistência a rótulos como feminismo e a certas minorias, como travestis e mulheres trans. Helena Vieira, professora e gestora cultural que atuou como consultora do estudo, afirmou que “o conservadorismo não tem uma especificidade geracional” e que há aceitação de conteúdos políticos combinada com rejeição às identidades políticas que os articulam.
A pesquisa também registrou aparentes paradoxos nas respostas. Sobre homossexualidade, cerca de 70% dos homens e 83% das mulheres jovens concordam que casais gays devem ter direito à adoção, mas mais da metade afirmou que “a homossexualidade deve ser vivida entre quatro paredes, de maneira reservada”. Vieira interpretou que a concordância com a adoção pode refletir uma preocupação protetiva com a infância, não necessariamente aceitação plena das relações entre pessoas do mesmo sexo.
Em questões de gênero, menos de um quarto dos jovens concordou que “homens são superiores às mulheres”, mas quase metade endossou afirmações críticas ao feminismo, como a ideia de que “o feminismo promove ódio aos homens” ou que “a ideologia feminista é uma ameaça à família brasileira”. Sobre o ensino da chamada “ideologia de gênero” nas escolas, 59% dos jovens disseram que isso “confunde a sexualidade das crianças” e 55% afirmaram que a sexualidade é assunto somente da família.
Uma questão que despertou maior resistência entre homens jovens foi a de acesso a banheiros: apenas 19% dos homens de 16 a 24 anos concordaram que travestis devem ter direito a usar o banheiro feminino. Vieira explicou que a escolha do termo “travestis” nos enunciados foi deliberada, por ser a forma mais comum de referência social no Brasil.
O estudo também aponta que o bolsonarismo é relativamente mais forte entre homens jovens: 42% dos homens de 16 a 24 anos se identificam com ideias associadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro; os percentuais caem para cerca de 35% entre pessoas de 25 a 54 anos, 29% entre 55 e 64 anos e 25% entre os maiores de 65 anos, com margem de erro de até quatro pontos percentuais na última faixa. Os pesquisadores ressaltam, porém, que a identificação com a direita varia pouco por idade.
Foram aplicadas 14 perguntas a cerca de 10 mil brasileiros, em entrevistas presenciais realizadas entre janeiro e fevereiro de 2025, como parte da pesquisa mais ampla chamada O Brasil Invisível. Os organizadores argumentam que o método presencial procurou abarcar perfis variados da população, diferentemente de levantamentos virtuais feitos no exterior, que podem concentrar públicos mais conectados e urbanos.
Pablo Ortellado, diretor-executivo do More in Common e professor da USP, afirmou que pesquisas online têm maior risco de viés de seleção e que fenômenos muito visíveis nas redes sociais — como comunidades misóginas e movimentos de masculinidade — podem dar a impressão de serem mais disseminados do que mostram amostras representativas. Os pesquisadores lembram que o estudo não encontrou evidência de que os jovens sejam mais conservadores do que os mais velhos em nenhuma das perguntas aplicadas e que o recorte por idade e gênero passa a ser divulgado agora.
As perguntas utilizadas investigaram atitudes sobre papéis de gênero, feminismo, direitos das mulheres, adoção por casais gays, visibilidade da homossexualidade, ensino sobre gênero nas escolas, cirurgias de transição pelo SUS, uso de banheiros por travestis, além de identificação com direita, conservadorismo e bolsonarismo.
Os autores do estudo reconhecem que a pesquisa não resolve questões centrais, como se as pessoas se tornam mais conservadoras com a idade ou se diferenças entre gerações persistirão ao longo do tempo, e que são necessários novos levantamentos para entender mudanças de valores intergeracionais.
Com informações de G1




