Instituições meteorológicas nacionais e internacionais confirmaram a formação de um evento de El Niño de forte intensidade no Pacífico Equatorial, com potencial para se tornar um “Super El Niño”. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (NOAA) registraram o estabelecimento do fenômeno, cujas projeções indicam impacto no padrão de temperaturas e precipitações no Brasil ao longo do segundo semestre.
O que está acontecendo
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Em situação neutra, os ventos alísios empurram águas quentes em direção à Indonésia; durante o El Niño, esses ventos enfraquecem ou mudam de direção, permitindo que massas de água aquecidas se aproximem da costa da América do Sul e alterem a circulação atmosférica global.
Uma classificação de “Super El Niño” é aplicada quando o aquecimento do oceano excede 2°C acima da média histórica por vários meses, como ocorreu em 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Para o ciclo atual, modelos europeus apontam aquecimentos que podem chegar ou superar 3°C em sectores do Pacífico, e o monitoramento do INMET no início de junho de 2026 detectou anomalias de até +2,1°C na região Niño 1+2, próxima à costa sul-americana.
Confirmações técnicas e probabilidades
O meteorologista Denis Garcia informou que o Pacífico Equatorial já atingiu o limiar necessário para caracterizar o El Niño. “As temperaturas na região ‘Niño 3.4’ permaneceram mais de 0,5°C acima da média por quatro semanas consecutivas, o que confirma o estabelecimento do fenômeno”, declarou. Garcia acrescentou que, após um período de transição e correções nos modelos, as previsões voltam a ganhar confiabilidade.
Dados reunidos por agências como a JMA (Japão), BoM (Austrália) e o Centro Europeu (ECMWF) indicam 96% de probabilidade de o evento permanecer ativo até o final do ano e início do próximo, e 63% de chance de que o trimestre de novembro a janeiro seja classificado como “muito forte”, podendo figurar entre os maiores registros desde 1950.
Efeitos regionais no Brasil
Embora se origine no Pacífico, o El Niño tende a influenciar amplas áreas do território brasileiro, com efeitos que variam por região. O INMET destaca tendências gerais associadas ao fenômeno:
Sul: chuvas acima da média histórica e risco aumentado de temporais.
Norte e Nordeste: redução das precipitações, elevação de temperaturas e condições de estiagem.
Sudeste e Centro-Oeste: médias térmicas acima do normal e possibilidade de atraso no início das chuvas.
Casos regionais e impactos socioeconômicos
Em Minas Gerais e no Triângulo Mineiro, o climatologista William Borges avaliou que a estação fria pode registrar precipitações regulares nesta fase, mas que o quadro deve mudar com a transição de estações. “Podemos esperar ondas de calor e também, principalmente neste inverno, chuvas dentro da média até acima da média. No entanto, as projeções indicam um atraso no início do período chuvoso na nossa primavera, entre setembro e novembro, com precipitações abaixo da média”, disse Borges. Ele lembrou que a estação chuvosa local normalmente se consolida na segunda quinzena de outubro e destacou projeções de anomalias de até 2,5°C no Pacífico durante a primavera. Borges apontou ainda que, caso o El Niño evolua conforme eventos passados, há grande probabilidade de chuvas acima da média no Triângulo Mineiro durante o verão.
No aspecto econômico, um Super El Niño pode afetar a agricultura do Centro-Oeste ao atrasar as chuvas de primavera, comprometendo o plantio da soja e encurtando a janela para a segunda safra de milho. Internacionalmente, a redução de produção de alimentos em regiões como Ásia e África tende a pressionar preços de commodities. No setor elétrico brasileiro, a expectativa de estiagens no Norte e Nordeste eleva o risco de queda nos níveis de reservatórios, o que pode levar ao acionamento de usinas termelétricas e ao aumento das bandeiras tarifárias.
O monitoramento do Pacífico continuará em caráter contínuo, com novos boletins e atualizações pelas autoridades meteorológicas nacionais e internacionais à medida que o fenômeno evoluir.
Com informações de Paranaibamais




