A escalada do conflito no Oriente Médio, com ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã e a expansão das hostilidades a países vizinhos, vem pressionando o preço do petróleo e a cotação do dólar no Brasil, o que pode limitar a magnitude e a duração dos cortes na taxa de juros doméstica.
No início da semana, o petróleo ultrapassou US$ 82 por barril, nível mais alto desde janeiro de 2025. Analistas apontam que o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã pode provocar aumentos substanciais nos preços da commodity nos próximos meses, com impacto direto nos custos dos combustíveis no país.
Ao mesmo tempo, a moeda norte-americana subiu 0,6% na segunda-feira (2), alcançando R$ 5,16, e continuou em alta na terça-feira. A valorização do dólar, combinada com o avanço do petróleo, eleva expectativas de aumentos nos preços dos combustíveis e da energia, com efeitos indiretos sobre transporte, indústria e agronegócio, além de limitar o ritmo de recuperação da atividade econômica interna.
Economistas alertam que essa alteração nos preços relativos — especialmente petróleo e dólar — pode contaminar tanto os preços atuais quanto as projeções de inflação para este e os próximos anos. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central toma decisões com foco no futuro, considerando que mudanças na taxa de juros demoram de seis a 18 meses para produzir efeito pleno na economia. Atualmente, o BC busca, por meio da taxa de juros, atingir a meta central de inflação de 3% em doze meses até setembro de 2027.
Se a guerra se estender no curto prazo, seus efeitos sobre a inflação via petróleo e dólar podem persistir e forçar o Copom a ajustar expectativas, limitando a intensidade e o ritmo dos cortes na taxa Selic. Na ata da reunião de janeiro, antes da eclosão do conflito, o colegiado já considerava o cenário externo incerto, mas avaliou que, no momento, os preços das principais commodities estavam contidos e as condições financeiras, favoráveis.
Antes da crise, o mercado projetava que a Selic começaria a cair neste mês, de 15% para 14,5% ao ano, e seguiria reduzindo para 12% ao fim de 2026 e 10,5% em 2027. Entre os analistas consultados, há diferenças sobre o impacto imediato da alta do petróleo.
Rafaela Vitoria, economista-chefe do banco Inter, afirma que o recente aumento do petróleo não exige, de imediato, reajuste nos combustíveis pela Petrobras, a menos que o preço se mantenha elevado por mais tempo. Ela diz ainda que um eventual aumento de cerca de 10% nos combustíveis teria efeito limitado na inflação e que o dólar abaixo de R$ 5,50 não representa preocupação maior para as expectativas inflacionárias deste ano. Rafaela mantém a previsão de corte da Selic para 14,5% ao ano em meados de março, mas admite que um impacto maior da alta do petróleo poderia levar o Copom a postergar ou a iniciar os cortes num ritmo mais lento, de 25 pontos-base.
Leonardo Costa, economista do ASA, destaca que a escalada de tensões aumenta os riscos para o setor de energia, mas que o efeito final vai depender da duração e intensidade do conflito. Ele observa que a política de suavização de preços da Petrobras tende a atrasar o repasse da alta internacional para os combustíveis, com o diesel devendo subir antes da gasolina devido ao maior peso das importações. Segundo Leonardo, um aumento de 10% na gasolina acrescentaria cerca de 0,20% a 0,25% ao IPCA anual, enquanto o diesel impactaria a inflação de forma mais indireta, por meio de custos na cadeia produtiva.
Fabiano Zimmermann, head de fundos de renda fixa do ASA, afirma que, por ora, o conflito não deve alterar o plano do Banco Central de iniciar o ciclo de cortes em março, mas alerta que, se a crise se prolongar, a tendência de valorização do real pode ser interrompida e o preço do petróleo pode subir a um novo patamar, fatores que tenderiam a reduzir a magnitude do afrouxamento monetário. Zimmermann acrescenta que esse risco já se reflete na curva de juros, com aumento do prêmio na parte intermediária.
O desdobramento das ações militares e seu efeito sobre os preços internacionais seguem sendo monitorados por autoridades e mercados, devido ao potencial impacto sobre inflação, atividade econômica e decisões de política monetária no Brasil.
Com informações de G1




