Decisão de entregar um tablet ou celular às crianças ocorre com maior frequência quando os pais estão estressados, independentemente do comportamento dos filhos, aponta pesquisa recente.
Um cenário comum — pais cansados por volta das 18h tentando preparar o jantar enquanto lidam com discussões entre as crianças — ilustra a dinâmica que leva muitos responsáveis a recorrerem a telas para restabelecer a calma. Segundo o autor principal do estudo, doutorando em psicologia clínica infantil e do adolescente, a escolha de usar um dispositivo como “solução rápida” está mais associada à capacidade do adulto de lidar com o estresse do momento do que ao temperamento ou às ações da criança.
O uso de telas na infância é quase universal nos Estados Unidos: quase todas as crianças são expostas a dispositivos diariamente e 42% das crianças de 2 a 4 anos têm seu próprio tablet. A American Pediatric Association recomenda que crianças de 18 meses a 2 anos não usem mídias sem supervisão e que crianças de 2 a 5 anos tenham o tempo de tela limitado a menos de uma hora por dia. Mesmo assim, a maioria das crianças pequenas não segue essas orientações.
Detalhes da pesquisa
O estudo de 2025 avaliou a relação entre estresse dos pais e estratégias parentais sobre mídias digitais. Em uma pesquisa on-line com 822 pais de crianças de 4 a 8 anos, os responsáveis informaram níveis de estresse parental, problemas comportamentais dos filhos e práticas relacionadas ao uso de telas — incluindo com que frequência estabeleciam limites e com que frequência usavam telas para controlar o comportamento das crianças.
Foram analisados três tipos de estresse parental: estresse por questões pessoais dos pais; estresse relacionado à relação com o filho; e estresse causado pelo comportamento difícil da criança. Os resultados mostraram que pais com altos níveis de estresse por razões pessoais impunham menos limites ao uso de telas, independentemente do comportamento infantil. Já pais que se sentiam estressados pelo comportamento ou temperamento desafiador das crianças tendiam a usar telas para controlar ou evitar esses comportamentos. Por outro lado, o estresse ligado à relação entre pai/mãe e filho não aumentou a probabilidade de entrega de telas.
Esses achados permaneceram mesmo após considerar o comportamento real das crianças na análise — indicando que pesa mais a percepção do responsável sobre a dificuldade de lidar com a situação naquele momento do que apenas o comportamento observado.
Com o início de um novo ano letivo e a retomada de rotinas mais rígidas, os autores sugerem que famílias elaborem planos prévios de uso de mídias, definindo horários e espaços sem tela, proibindo o uso durante refeições ou antes de dormir e limitando aplicativos, sempre que possível com a participação das crianças na criação das regras.
O texto foi assinado por Enid A. Moreira (doutoranda em Psicologia Clínica Infantil e do Adolescente, Florida International University), Daniel M. Bagner (professor de Psicologia e diretor de formação clínica, Florida International University) e Shayl Griffith (professora associada do Departamento de Aconselhamento, Recreação e Psicologia Escolar e do FIU Center for Children and Families, Florida International University) e foi publicado originalmente em inglês.
Com informações de G1




