Um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), em parceria com a Tendências Consultoria, aponta que a proposta em discussão no Congresso para reduzir a jornada de 44 para 36 horas semanais e extinguir a escala 6×1 pode provocar impactos negativos na economia brasileira. A análise foi divulgada em 10 de março de 2026 e apresentada em Brasília, durante o seminário “Modernização da jornada de trabalho”, que reuniu parlamentares, especialistas e representantes do setor produtivo.
Segundo as simulações da Tendências, mesmo em um cenário otimista com ganho de produtividade de 2%, o Produto Interno Bruto (PIB) poderia recuar até 3,7% no primeiro ano após a mudança. No horizonte de cinco anos, a queda acumulada chegaria a 4,9%. O relatório observa que esse cenário favorável é considerado pouco provável, pois a produtividade do trabalho no Brasil tem permanecido praticamente estagnada há cerca de três décadas.
Outras simulações citadas no estudo mostram cenários piores, com retração do PIB entre 6,8% e 8,1%, dependendo do comportamento da produtividade e das reações das empresas. A metodologia empregada foi um modelo macroeconômico DSGE, amplamente usado por bancos centrais e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), aplicado em dois cenários: com ganho de produtividade e sem avanço relevante nessa área. Em ambos, os resultados indicaram impacto negativo para o emprego e para a atividade econômica no curto prazo.
O levantamento também projeta efeitos sobre o mercado de trabalho. A Fiep estima que até 1,5 milhão de trabalhadores formais podem correr risco de demissão ou migração para a informalidade caso a redução da jornada ocorra sem aumento proporcional da produtividade. Pesquisas internacionais compiladas no relatório indicam que, diante da redução de horas, empresas tendem a cortar horas contratadas, substituir profissionais mais experientes por trabalhadores com salários menores e elevar a rotatividade.
Em termos de renda, o estudo aponta que o salário por hora pode subir, mas o salário mensal tende a permanecer estável se as empresas reduzirem o total de horas contratadas, o que pode aumentar a dupla ocupação. A Fiep ressalta que ganhos de produtividade decorrentes de jornadas menores costumam ser modestos e concentrados em setores específicos.
O relatório analisa experiências de países como Alemanha, França, Portugal, Japão, Canadá, Bélgica e Eslovênia, e registra em muitos casos efeitos nulos ou negativos sobre o emprego, queda de produtividade quando ganhos não acompanham a redução de horas e aumento de custos para empresas. A federação defende que qualquer mudança na jornada deve ocorrer via negociação coletiva e com adaptação às características de cada setor, além de avanços prévios em políticas de produtividade — como modernização tecnológica, qualificação, políticas industriais, acesso a crédito e simplificação tributária.
Outros levantamentos mencionados no estudo também indicam desafios semelhantes. Pesquisa da FGV EESP, apresentada no mesmo dia pelo economista André Portela, aponta que a redução de 44 para 36 horas com manutenção plena dos salários poderia elevar o custo da hora em cerca de 22%, levando empresas a repassar custos aos preços, acelerar automação ou reorganizar turnos. Estimativas da Confederação Nacional do Comércio (CNC) indicam que o comércio poderia ver aumento da folha em cerca de 21% e que cada 1% de alta no custo do trabalho pode elevar a informalidade em 0,34%.
Setores como turismo, que usam amplamente a escala 6×1, e o agronegócio, que depende de ciclos produtivos específicos (como café, uva, laranja e pecuária leiteira), também foram apontados como particularmente sensíveis a mudanças rígidas na legislação. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) é citada em estudos que estimam aumento de custos de até R$ 267 bilhões caso a jornada seja reduzida para 40 horas semanais.
Para a Fiep, o debate sobre a jornada de trabalho é legítimo e precisa ser conduzido com base em dados técnicos e diálogo entre governo, empresas e trabalhadores, considerando os efeitos sobre crescimento econômico, competitividade e geração de renda.
Com informações de G1




