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quinta-feira, novembro 5, 2026

Clima e escassez de alimentos elevam risco de conflitos em várias regiões do mundo

Clima e escassez de alimentos elevam risco de conflitos em várias regiões do mundo

Pesquisas recentes mostram que a combinação de eventos climáticos extremos, como secas ligadas ao fenômeno El Niño, e interrupções nas cadeias de abastecimento vem aumentando a probabilidade de tensões sociais e conflitos armados em diversas partes do planeta. Agricultores enfrentam perdas de produtividade enquanto guerras e restrições comerciais pressionam ainda mais o fornecimento de alimentos e insumos agrícolas.

O El Niño, em formação neste momento, pode agravar a escassez alimentar para milhões de pessoas no próximo ano, segundo especialistas. Ao mesmo tempo, conflitos geopolíticos têm causado impacto direto nos mercados: a guerra na Ucrânia provocou instabilidade nos preços e fluxos de grãos, e a crise envolvendo o Irã no Estreito de Ormuz elevou os custos de combustíveis e fertilizantes, encarecendo a produção agrícola global.

Um estudo do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) em parceria com a Escola de Economia de Barcelona criou o Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (Cadi, na sigla em inglês) para mapear como as mudanças climáticas têm alterado a produtividade agrícola ao redor do mundo. O pesquisador Hannes Mueller, integrante da pesquisa, ressalta que as maiores perdas ocorrem em regiões tropicais.

Cento e dezenas de milhões de pessoas já vivem em áreas onde as colheitas caíram em comparação a 30 anos atrás. Países como Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador já registram reduções significativas na produção agrícola. O Norte da África também figura entre as áreas mais afetadas, segundo o estudo.

Além do declínio de produtividade, a pesquisa alerta que mudanças na distribuição da produção podem criar “vencedores” e “perdedores”. Em alguns territórios, áreas até então marginalizadas tornam-se mais produtivas, atraindo investimentos e intensificando disputas por terras e recursos. O Sudão é citado como exemplo onde o aumento da produção em certas regiões pode provocar conflitos internos, uma vez que outras áreas do país enfrentam perdas.

O Cadi aponta ainda que transformações agrárias tendem a gerar mais violência em regimes não democráticos. Mueller observa que democracias, apesar de suas falhas, costumam disponibilizar mecanismos institucionais que obrigam negociações entre grupos com interesses conflitantes, reduzindo a probabilidade de confrontos armados.

Especialistas também destacam o Sul da Ásia e o Sahel como regiões de alerta. Abdullah Fahimi, do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP), chama atenção para a dependência de mercados internacionais de alimentos e de recursos hídricos vulneráveis no Sul da Ásia, área com cerca de 2 bilhões de habitantes. O aumento de preços de produtos como trigo, milho e óleo de palma e impactos locais — ondas de calor, enchentes, intrusão salina e perda de produtividade — elevam a vulnerabilidade.

Fahimi lembra que derretimento acelerado de geleiras nas cordilheiras do Himalaia e do Hindu Kush pode, no longo prazo, reduzir drasticamente a disponibilidade hídrica usada na agricultura e no abastecimento humano, com potencial impacto sobre até 2 bilhões de pessoas ao longo do século.

Os pesquisadores destacam que nem toda mudança climática leva automaticamente a conflito, mas que a adaptação precisa ir além de mudanças nas culturas e tecnologias agrícolas. É necessário também ajustar instituições e mecanismos de governança para lidar com alterações no acesso à terra, à água e ao emprego. Onde instituições públicas, tribunais e lideranças locais conseguem mediar disputas, os choques têm mais chances de serem absorvidos sem escalada para violência; onde faltam essas estruturas, a pressão sobre o sistema alimentar pode se transformar em risco à paz.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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