22.6 C
Uberlândia
quinta-feira, novembro 5, 2026

Crédito caro prende entregadores argentinos aos aplicativos

Empréstimos digitais viram saída para recuperar veículos e renda

Quando a moto de um entregador é apreendida em Buenos Aires, muitos trabalhadores só conseguem voltar a rodar após contratar um empréstimo. As quantias servem para quitar multas e taxas necessárias à liberação do veículo, mas também acionam um ciclo de dívidas que estreita ainda mais a dependência dos aplicativos para obter renda.

O entregador Albert Quintero, de 41 anos, diz que ganha, em média, 70 mil pesos argentinos por dia — cerca de US$ 46 — fazendo entregas de comida. Recuperar uma moto apreendida pode custar cerca de 140 mil pesos (aproximadamente US$ 90), o equivalente a dois dias de trabalho, segundo relato de Quintero à Reuters. Muitos não têm esse montante à disposição e recorrem a crédito.

Fintechs e as próprias plataformas de entrega passaram a oferecer empréstimos rápidos aos entregadores, porém às vezes com taxas anuais elevadas. A PedidosYa, por exemplo, oferta crédito a uma taxa anual de 131%, enquanto a carteira digital Personal Pay cobra cerca de 170%, conforme os dados citados pela reportagem.

O crescimento do crédito privado por meios digitais é marcado: segundo Mariano Biocca, diretor-executivo da Câmara Argentina de Fintech, o número de empréstimos concedidos por essas empresas saltou de aproximadamente 500 mil para 10 milhões em sete anos.

Inadimplência sobe enquanto famílias sentem pressão

O aumento do endividamento ocorre em um contexto de alta no custo de vida e apreensões sobre emprego. Estimativas compiladas pela Câmara Argentina de Fintech apontam que quase 6 milhões de pessoas estão com dívidas em atraso há mais de 90 dias — praticamente um terço dos tomadores de crédito. Em junho, a parcela dos empréstimos às famílias em atraso alcançou 12,8%, o maior nível desde o início da série histórica do Banco Central, em 2010; quando Javier Milei assumiu a Presidência, no fim de 2023, esse índice era de 2,8%.

Analistas citados na cobertura observam que a dinâmica mudou: durante anos de inflação elevada, o peso real das dívidas tendia a cair porque preços e renda subiam rapidamente. Agora, com juros acima da inflação, o custo do endividamento aumentou e o pagamento das parcelas ficou mais oneroso.

Um estudo da consultoria Analytica destacou que os jovens vêm sendo os mais afetados pelo crescimento da inadimplência. Enrique Tobani, participante de um protesto em agosto em frente ao Ministério da Economia em Buenos Aires, disse que “eles conseguem dinheiro facilmente pelas carteiras digitais, mas não percebem os juros que estão pagando” e que “todo vizinho, familiar ou trabalhador com quem você conversa está passando pela mesma situação”.

Reclamações por medidas públicas e posição do governo

Sindicatos, organizações de defesa do consumidor e grupos de devedores têm pedido medidas públicas para aliviar o peso das dívidas, mas o governo de Milei, em geral, resiste a intervenções financiadas pelo Estado. Autoridades argumentam que o endividamento das famílias é uma relação privada entre credor e tomador e consideram o aumento da inadimplência, em parte, um efeito temporário da expansão do crédito privado.

Hoje, o crédito privado representa cerca de 12% do Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina, bem abaixo dos aproximadamente 80% registrados no Brasil. Na semana anterior à reportagem, autoridades brasileiras também manifestaram preocupação com a elevação do endividamento das famílias, ligada a linhas de crédito caras e a critérios de concessão menos rigorosos.

O crescimento dos empréstimos digitais e das taxas elevadas reflete, segundo a reportagem, como trabalhadores de plataformas e suas famílias têm lidado com as transformações econômicas desde a chegada de Milei à Presidência.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
Últimas Notícias
Veja também