Compradores adultos impulsionam mercado de artigos nostálgicos
Brinquedos e colecionáveis que marcaram a infância de pessoas nascidas nas décadas anteriores passaram a valer somas muito superiores ao preço original, com algumas peças alcançando centenas de milhares ou até milhões de reais em vendas recentes. O mercado de cartas do jogo Pokémon é o exemplo mais notório: uma reportagem do Financial Times registrou a venda, em fevereiro, de uma carta Pikachu Illustrator (1998) por US$ 16,5 milhões (R$ 84,81 milhões), um recorde mundial.
Outras cartas também foram negociadas por cifras elevadas, incluindo vendas individuais acima de US$ 1 milhão (R$ 5,14 milhões). Há casos em que cartas adquiridas por valores baixos viraram investimentos: uma carta Mario Pikachu, comprada oito anos antes por £30 (R$ 208,20), foi vendida recentemente por cerca de £20 mil (R$ 138 mil).
Quem compra e por quê
Muitos dos compradores têm entre 30 e 40 anos e passaram a ter maior poder aquisitivo, o que, combinado com o sentimento de nostalgia, estimula a busca por itens da infância. Elliot Cabrol, comerciante de cartas com mais de 20 anos de atuação, afirmou ao Financial Times que muitos adquirem as peças como forma de reviver lembranças da infância.
O mercado também tem atraído profissionais que migraram para o comércio de colecionáveis. Jordan Dunne deixou seu posto como analista de dados em um escritório de advocacia em 2025 para trabalhar com cartas de Pokémon. Ele projeta que seu negócio alcance cerca de £4 milhões (R$ 27,76 milhões) em vendas em 2026, ante £1,2 milhão (R$ 8,32 milhões) em 2025. Em transmissões ao vivo na plataforma eBay, Dunne já vendeu cartas por mais de £2 mil (R$ 13,88 mil) cada e afirmou que algumas operações podem gerar até £60 mil (R$ 416,4 mil) em poucas horas. Em apenas três semanas de agosto de 2026, ele negociou três cartas de sua coleção por cerca de £300 mil (R$ 2,082 milhões), tendo comprado as mesmas peças por metade desse valor um ano antes.
Raridade e condição determinam preços
Parte da alta nos preços decorre da escassez de exemplares antigos em bom estado. Cartas produzidas há décadas são raras em condições perfeitas; já as edições recentes continuam sendo impressas em grandes quantidades. A diferença de valor entre uma peça considerada “perfeita” e outra em condição inferior pode ser enorme: uma carta rara de Pikachu foi vendida por cerca de £250 mil (R$ 1,735 milhão) quando avaliada como impecável, enquanto outro exemplar em condições levemente piores valia aproximadamente £15 mil (R$ 104,1 mil).
Empresas especializadas avaliam cartas numa escala de 1 a 10 considerando riscos, bordas e centralização da imagem. Um exemplo citado é a versão de Pikachu de 2002, da qual apenas 35 exemplares receberam a nota máxima. A demanda elevou o volume de análises: em agosto de 2026, uma empresa especializada inspecionou mais de 1,3 milhão de cartas de Pokémon — dez vezes o total do mesmo mês em 2021 — e, em maio, chegou a suspender o recebimento de cartas de menor valor por falta de capacidade.
Feiras, segurança e episódios de roubo
A procura se reflete também em eventos: uma feira de cartas em Farnborough, Inglaterra, reuniu 10 mil pessoas em 2026, o dobro do ano anterior. Compradores chegaram com caixas trancadas e transporte de grandes quantias em dinheiro, e comerciantes relataram receio de divulgar nomes por medo de assaltos. A apreensão é fundamentada: houve invasões a lojas de colecionáveis em Londres com roubo de cartas de alto valor, e no ano anterior um homem foi preso em Manchester após a polícia localizar um conjunto de cartas de Pokémon roubadas avaliado em £250 mil (R$ 1,735 milhão).
O cenário no Brasil
No Brasil, colecionadores também investem quantias significativas em peças nostálgicas. O empresário Paulo de Carvalho, de 45 anos, coleciona brinquedos antigos desde a adolescência e guarda cerca de cinco mil itens em um galpão em Cubatão (SP). Ele contou que começou a vender antiguidades com o avô aos 13 anos, influenciado pela paixão do familiar por moedas e cédulas, e que a prática resultou no interesse atual por brinquedos que não teve quando criança.
Além de cartas de Pokémon, a valorização alcança produtos mais recentes e de menor custo inicial, como Funko Pop, Lego, Sylvanian Families, Hot Wheels, figuras e itens de Star Wars e jogos de tabuleiro como War. Um exemplo recente citado é a coleção de bonecos de Dragon Ball Z lançada pelo Burger King: anunciada em 31 de agosto como ação promocional, o conjunto com seis bonecos já era ofertado em sites por R$ 299,90 menos de 15 dias depois. Para muitos compradores, a aquisição não tem a ver com voltar a brincar, mas com preservar uma lembrança da infância — e, em alguns casos, com transformar essa lembrança em um ativo de alto valor.
Com informações de G1




