Um relatório do Iede, apresentado em conjunto com a B3 Social e em diálogo com a Fundação Lemann, reuniu práticas adotadas por redes municipais que têm obtido resultados positivos no ensino da matemática nos anos iniciais. O estudo, divulgado pelo g1 em 7 de outubro de 2026, parte de um diagnóstico que revela a gravidade do desempenho do país: apenas 51% dos alunos do 5º ano tinham conhecimentos adequados em matemática em 2025, ante 44% em 2023, segundo o Saeb.
Em avaliações internacionais o cenário também é preocupante. No TIMSS 2023, o Brasil alcançou média de 400 pontos, 103 a menos que a média dos países desenvolvidos, ficando à frente apenas do Kuwait e da África do Sul. No Pisa, entre 2015 e 2025, o país mostrou quase nenhuma evolução na disciplina; e, aos 15 anos, sete em cada dez estudantes não conseguem realizar cálculos simples.
Para enfrentar esses déficits, o Iede investigou iniciativas de redes municipais e selecionou casos com resultados consistentes, incluindo Casinhas (PE), Joaquim Távora (PR), Ji-Paraná (RO), Miracema (RJ), Junqueirópolis (SP), Anicuns (GO) e o município de Cruz (CE), onde foi feito o piloto do estudo. A escolha considerou, segundo a organização, a presença de desempenho sólido mesmo entre alunos de baixa condição socioeconômica.
Principais recomendações
O material reúne um conjunto de medidas que, se articuladas, podem melhorar o ensino-aprendizagem da matemática. Entre elas estão a distribuição de materiais manipuláveis (ábacos, dobraduras, objetos recicláveis); a criação de salas e espaços “matematicamente ricos” com recursos visíveis e integrados às atividades; e a adoção de avaliações próprias para mapear dificuldades e orientar a sequência das aulas.
O estudo também destaca a importância de rotinas de aula bem definidas, com prática constante, revisões regulares e momentos específicos para desenvolver fluência em cálculos. Propõe incentivar os estudantes a explicar seus raciocínios e a comparar estratégias de resolução, além de promover eventos que estimulem o gosto pela disciplina, como olimpíadas e desafios envolvendo famílias.
Gestão, formação e avaliação
Na gestão da rede, as recomendações incluem metas claras, trabalho colaborativo entre secretarias, acompanhamento frequente às escolas e integração entre currículo, materiais, formação e avaliações. A coordenação pedagógica deve funcionar como elo entre secretaria e sala de aula, acompanhando planos de aula e suportando intervenções rápidas.
Quanto à formação, o estudo aponta a necessidade de formações específicas em matemática, parcerias com universidades e a garantia de horários para planejamento coletivo. Em avaliação, sugere sistemas contínuos e alinhados ao currículo que orientem ações de reforço e turmas de recuperação, sem reduzir o trabalho a um “treino” para testes padronizados.
Materiais, espaços e desafios
Os autores defendem o uso de materiais concretos para tornar conceitos abstratos mais acessíveis e a produção local de recursos pedagógicos adaptados à realidade municipal. Entretanto, alertam para riscos e limitações já observados nas redes: falta de profissionais especializados em matemática, equipes sobrecarregadas, trocas de gestão que comprometem continuidade, uso meramente decorativo de materiais e infraestrutura inadequada que limita atividades lúdicas e em grupo.
O relatório lista ainda problemas na implementação, como formações genéricas sem aprofundamento, insuficiência de profissionais de apoio para inclusão e falta de planejamento antecipado para adaptações pedagógicas.
Os pesquisadores ressaltam que as medidas têm efeito quando combinadas e mediadas por práticas docentes intencionais — por exemplo, um jogo didático só produz aprendizagem se o professor o conecta a objetivos, provoca explicações dos alunos e sistematiza os conhecimentos gerados.
O estudo propõe, portanto, um conjunto integrado de ações que envolvem gestão, sala de aula, materiais, formação e avaliação para tentar reverter o baixo rendimento em matemática observado nas avaliações nacionais e internacionais.
Com informações de G1




