Transmissão: Record
Fila de caminhões parou BR-163 e deixou motoristas sem condições básicas
Caminhoneiros que levaram a safra de soja até o porto de Miritituba, no Pará, relatam ter passado dias parados em filas sem acesso a água potável, banheiro ou locais para descanso. No fim de fevereiro, a fila chegou a 45 km e invadiu a BR-163, principal rota de escoamento dos grãos vindos do Mato Grosso para o Norte do país.
O motorista Álvaro José Dancini disse ter permanecido dois dias na fila e descreveu a situação como precária: banho no igarapé e uso do mato como sanitário. Jefferson Bezerra ficou 40 horas parado na estrada e mais 12 horas dentro do terminal portuário. Segundo ele, muitos motoristas sobreviveram com o que tinham dentro do caminhão, enquanto postos nas proximidades distribuíam água a alguns motoristas.
Além do desconforto, os caminhoneiros apontam prejuízos financeiros. Renan Galina afirmou que ficar dias parado reduz os ganhos, já que não há pagamento por estadia e o frete deixa de ser executado, comprometendo o faturamento esperado na safra.
Especialistas e representantes do setor atribuem o problema a um conjunto de limitações logísticas. Fernanda Rezende, diretora executiva da Confederação Nacional do Transporte (CNT), afirmou que cargas como grãos seriam mais adequadas a modais com maior capacidade, como ferrovias e hidrovias, mas a dependência do transporte rodoviário persiste. A CNT estima que apenas cerca de 12,4% das estradas do país são pavimentadas.
O professor Thiago Péra, da Esalq-USP, destacou o custo elevado dos caminhões: um consumo médio de cerca de um litro de diesel a cada 2 km. Em uma viagem de 2.000 km até o porto de Santos, por exemplo, o gasto pode atingir 1.000 litros. Péra observou que longas distâncias e infraestrutura insuficiente aumentam o custo do transporte e reduzem a competitividade do agronegócio brasileiro.
No caso de Miritituba, o acesso é feito exclusivamente por caminhão e os terminais têm recebido mais carga do que conseguem armazenar nesta época do ano, segundo relatos. A falta de armazéns faz com que parte da produção seja escoada imediatamente, transformando os caminhões em depósitos móveis; a CNT indica que o país tem capacidade para estocar cerca de 80% da produção agrícola.
Estradas sem pavimentação, vicinais em más condições, buracos e sinalização precária também foram apontados como causas de quebras e atrasos. Motoristas relataram danos em veículos por passagem por trechos esburacados, que geram custos extras com manutenção e reduzem a disponibilidade de veículos para transporte durante a colheita.
Segundo Péra, o baixo investimento em infraestrutura — entre 0,4% e 0,6% do PIB, frente a mais de 2% em países como Estados Unidos e China — contribui para a defasagem da malha ferroviária e dos armazéns frente ao crescimento da produção, perpetuando gargalos no escoamento da safra.
O acúmulo de caminhões nos portos, com falta de pátio para recepção e utilização da rodovia como área de espera, tem efeito direto sobre o preço do frete na época da colheita e sobre o faturamento dos motoristas, que relatam redução significativa de ganhos durante o período crítico entre janeiro e a primeira quinzena de março.
O relato dos caminhoneiros e as análises de especialistas mostram os pontos de pressão no transporte de cargas agrícolas, sobretudo em rotas que concentram grande volume de produção sem infraestrutura compatível.
Com informações de G1




