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terça-feira, outubro 13, 2026

Singular ou plural? Por que “mudança climática” e “mudanças climáticas” transmitem mensagens diferentes

Quem: O tema foi discutido inicialmente em correção feita pelo professor Niro Higuchi e retomado pelo geoquímico Wallace Broecker; o texto foi elaborado por Eric Bastos Gorgens, pesquisador e bolsista de produtividade do CNPq.

O que: A escolha entre os termos “mudança climática” (singular) e “mudanças climáticas” (plural) reflete abordagens distintas: o singular enfatiza uma alteração sistêmica e termodinâmica do equilíbrio climático global; o plural destaca a multiplicidade de impactos regionais e episódicos.

Quando e onde: A preferência pelo singular aparece desde o artigo de Broecker, publicado em 1975 na revista Science, e foi adotada em documentos internacionais a partir da década de 1980, como a Resolução 43/53 da Assembleia Geral da ONU de 1988. No Brasil, a transição para o plural consolidou-se ao longo da década de 2000.

Como: Em 1975, Wallace Smith Broecker (1931–2019), professor da Universidade de Columbia e pesquisador do Lamont-Doherty Earth Observatory, descreveu “climate change” no singular para indicar uma transição de estado do sistema terrestre, apoiando-se em evidências como amostras de gelo da Groenlândia (Camp Century). Broecker explicou que um resfriamento observado entre as décadas de 1940 e início dos anos 1970 resultava de aerossóis e ciclos naturais multidecadais, os quais mascaravam o aquecimento causado pelo aumento do CO₂. Ele previu que, após a reversão desse ciclo natural, o efeito estufa antropogênico levaria a um aquecimento pronunciado nas primeiras décadas do século XXI, e popularizou a expressão “global warming”.

Por que: Do ponto de vista gramatical e semântico, a escolha varia entre idiomas. Em inglês, “climate change” trata “change” como substantivo incontável, mantendo o singular. Em línguas latinas — português, espanhol e francês — é comum pluralizar para enfatizar manifestações práticas e empíricas do fenômeno. A tradução de documentos da ONU e dos relatórios do IPCC no final dos anos 1980 e durante os anos 1990 favoreceu o uso do plural nas línguas latinas.

No Brasil, durante a década de 1990, o vocabulário oficial e diplomático — presente em setores governamentais, no Ministério do Meio Ambiente e na diplomacia do Itamaraty — permanecia alinhado ao singular, em sintonia com a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). A mudança de vocabulário ocorreu quando o tema saiu dos fóruns especializados e alcançou a mídia, ONGs e pesquisa multidisciplinar. Eventos como o Furacão Catarina, em 2004, e a seca histórica na Amazônia, em 2005, combinados ao impacto do 4º Relatório do IPCC (AR4) e ao documentário Uma Verdade Inconveniente, em 2007, impulsionaram a adoção do plural pela imprensa e pela divulgação científica.

As iniciativas institucionais confirmaram a popularização do plural: em 2007 foi estruturada a Rede CLIMA (Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais) pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e em 2008 a FAPESP lançou o Programa de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais. Apesar disso, a esfera jurídica manteve a tradição do singular, como na Lei Federal 12.187/2009, que instituiu a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC).

Eric Bastos Gorgens defende o uso do singular por razões científicas: ao tratar o fenômeno como uma única mudança de estado no balanço de energia do planeta, o discurso recupera a causalidade primária — o acúmulo de gases de efeito estufa que altera a retenção de radiação infravermelha — em vez de fragmentar o debate em eventos locais que são manifestações desse processo sistêmico.

O vocabulário adotado — singular ou plural —, portanto, não é apenas questão de gramática, mas também de ênfase conceitual sobre como o fenômeno é apresentado em âmbitos científicos, diplomáticos e públicos.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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