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segunda-feira, outubro 19, 2026

Finlândia, eleita país mais feliz, enfrenta crise fiscal e pode reduzir serviços e benefícios

A Finlândia, que lidera o Relatório Mundial da Felicidade há nove anos, vive um clima de preocupação diante de um orçamento de austeridade considerado o mais severo dos últimos anos e da necessidade de reduzir o déficit fiscal. Com eleições previstas para abril de 2027, a discussão pública já se concentra em quais serviços e benefícios serão cortados.

O Instituto Nacional de Estatísticas da Finlândia informou em setembro que a dívida pública chegou a 90,3% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2026, ante cerca de 65% antes da pandemia de covid-19. Para efeito de comparação, a dívida bruta do governo geral do Brasil era de 82,5% do PIB em julho de 2026, segundo o Banco Central, embora as metodologias de cálculo sejam diferentes.

O aumento do endividamento está ligado, em parte, a maiores gastos com defesa desde a entrada do país na Otan, em 2023, e ao custo da transição energética após reduzir a dependência da Rússia. O Tesouro projetou em setembro que o déficit fiscal alcançaria 4,2% do PIB em 2026.

Pressão da União Europeia e propostas do governo

A União Europeia intensificou a cobrança por ajuste das contas públicas: pelas regras do bloco, o déficit deve ficar abaixo de 3% do PIB e a dívida dentro do limite de referência de 60%. Em janeiro, o Conselho da UE abriu um procedimento por déficit excessivo contra a Finlândia e deu ao país até o fim de 2028 para corrigir a situação.

O governo do primeiro‑ministro Petteri Orpo, no poder desde junho de 2023, anunciou a meta de economizar cerca de 9 bilhões de euros durante a legislatura. Economistas estimam, contudo, que serão necessários cortes mais profundos, entre 8 bilhões e 11 bilhões de euros, para estabilizar as contas. No início de 2026, quase todos os partidos concordaram em adotar um mecanismo de contenção da dívida, comprometendo o próximo governo a reduzir o déficit para cerca de 2% do PIB até 2031.

Até agora, o Partido da Coligação Nacional, de centro‑direita e liderado por Orpo, é o único que se comprometeu a realizar cortes adicionais de 9 bilhões de euros caso o premiê seja reeleito. Orpo planeja economias em saúde, assistência social e benefícios, além de mudanças em regimes de previdência ligados ao emprego sem diminuir os benefícios atuais. Enquanto isso, social‑democratas defendem combinar cortes com aumento de impostos; Orpo, por sua vez, diz que pretende evitar elevações tributárias, o que deixa a maior parte do ajuste nas mãos dos serviços públicos.

Analistas advertiram que o déficit é grande demais para ser resolvido apenas com cortes: seria necessário um pacote que incluísse também aumentos de tributos, segundo avaliação de economistas ouvidos por instituições nacionais.

Impacto no emprego, defesa e energia

Embora a proporção de pessoas em risco de pobreza na Finlândia esteja abaixo da média da UE, o país registra uma das maiores taxas de desemprego do bloco: 10,3% em agosto de 2026, segundo a Eurostat, ligeiramente acima dos 10% da Espanha; entre os jovens, o desemprego alcançou 23,3%, frente a 15,4% na média europeia.

Os gastos militares cresceram antes e durante a guerra na Ucrânia: a Finlândia já havia firmado a compra de 64 caças F‑35A dos Estados Unidos por cerca de 8,4 bilhões de euros e elevou os gastos anuais de defesa de 4,5 bilhões para mais de 8 bilhões de dólares, segundo o Sipri. Em abril, o governo anunciou a intenção de aumentar as despesas com defesa para 3,2% do PIB, próximo à meta de 3,5% da Otan.

No setor energético, os preços do petróleo, próximos de 100 dólares por barril devido à guerra no Irã, pressionam as contas; o Banco da Finlândia reportou aumento de 50% no custo da energia importada nos primeiros meses do conflito. A entrada em operação da usina nuclear Olkiluoto 3, em 2023, e investimentos em renováveis ajudaram a mitigar riscos, mas o banco central advertiu que a manutenção de preços elevados de petróleo e gás pode reduzir o crescimento e elevar a inflação em 2027.

Ao mesmo tempo, segmentos do setor exportador finlandês têm apresentado forte desempenho, puxados pela demanda por metais e encomendas na indústria naval, o que dá alguma chance de recuperação caso a procura da Europa permaneça elevada.

Reação dos mercados

Apesar do aumento da dívida e das dificuldades para ajustar o déficit, a reação dos mercados até agora tem sido moderada. Agências de classificação mantiveram a perspectiva estável em geral; a S&P alterou a perspectiva para negativa em abril, sem, contudo, reduzir a nota de crédito. Em 6 de outubro de 2026, o prêmio de risco da Finlândia para empréstimos de dez anos era de 0,38 ponto percentual acima da Alemanha; o diferencial era de 1,28 ponto na França e 1,07 ponto na Itália.

Em março de 2027, a Finlândia pode manter o título de país mais feliz do mundo pelo décimo ano consecutivo. Um mês depois, com as eleições de abril, o país terá pela frente a tarefa de enfrentar o ajuste fiscal e definir como as contas públicas serão reduzidas nos próximos anos.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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