Quem: Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidatos nas eleições de 25 de outubro de 2026;
O que: ambos terão de enfrentar três desafios econômicos centrais em 2027: desequilíbrio fiscal, desaceleração do crescimento e alto custo de vida/endividamento;
Quando: posse prevista para 5 de janeiro de 2027;
Onde: cenário econômico brasileiro; Por quê: pressão do mercado por ajuste, retomada de crescimento e desgaste entre eleitores devido à inflação e endividamento.
Déficit fiscal e dívida pública
O próximo presidente herdará uma dívida bruta do governo geral que alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Banco Central. A elevação da dívida decorre do gasto público acima da arrecadação, forçando o governo a se financiar a juros mais elevados e dificultando a redução da taxa básica de juros pelo BC, com efeito negativo sobre investimentos e crescimento.
Flávio Bolsonaro tem sinalizado propostas de corte de despesas — um “tesouraço” — e interlocutores econômicos do PL estimam um ajuste de 1,5% a 2% do PIB nos primeiros 18 meses, equivalente a R$ 190 bilhões a R$ 250 bilhões. Ao mesmo tempo, o senador prometeu manter reajuste real do salário mínimo, não desvincular aposentadorias e benefícios do mínimo e preservar os pisos constitucionais de Saúde e Educação, afirmando que o ajuste virá de cortes em ministérios, cargos comissionados, despesas administrativas e supersalários.
Lula, por sua vez, ampliou despesas com seu pacote eleitoral, que somam quase R$ 200 bilhões até 2030 segundo cálculo da Warren Investimentos, sem comprometer-se com cortes equivalentes. O presidente defende crescimento econômico e aumento da arrecadação como caminho para reduzir a dívida.
Economistas consultados pela BBC News Brasil e citados no levantamento avaliam que nenhum dos dois apresentou medidas fiscais suficientemente detalhadas durante a campanha. Bruno Imaizumi (4intelligence) e Felipe Salto (Warren Investimentos) destacam a necessidade de um plano claro e de senso de urgência logo após a eleição. Rafaela Vitória (Banco Inter) aponta que uma degradação das condições financeiras, com alta de juros futuros e dólar, poderia forçar medidas impopulares independentemente das promessas de campanha.
Desaceleração do crescimento em 2027
Analistas consideram que a economia já caminha para um crescimento reduzido em 2027. O boletim Focus do Banco Central traz mediana de 1,83% para o PIB em 2026 e 1,32% para 2027, mas há previsões de crescimento próximo a 1% no próximo ano. A desaceleração decorre da redução de estímulos fiscais após o ciclo eleitoral, juros ainda elevados que pressionam investimentos e expectativa de retração agrícola devido a um El Niño forte — com previsões de queda de 0,7% no setor agropecuário em 2027, segundo Imaizumi.
No plano de governo, o candidato do PL propõe elevar o crescimento médio de 2% para 4% ao ano por meio de medidas como facilitação do licenciamento ambiental, revogaço regulatório, desestatizações, atração de investimentos privados, redução de impostos, flexibilização trabalhista, incentivo a mineração e racionalização da conta de luz. Lula aposta em indução estatal ao investimento privado, continuidade de programas de reindustrialização (Nova Indústria Brasil), um novo PAC de infraestrutura e o Plano de Transformação Ecológica, além de fortalecimento da demanda interna por aumento da massa salarial e ampliação de linhas de crédito a micro e pequenas empresas (Pronampe, Procred 360 e Acredita).
Especialistas defendem que qualquer ajuste fiscal deve ser gradual para evitar recessão. Entre propostas apontadas como parte de um pacote gradual estão redução de 50% das emendas parlamentares, desindexação da Previdência e de benefícios do salário mínimo, limitação do crescimento dos pisos de Saúde e Educação a 2,5% ao ano, revisão abrangente do gasto tributário e fim dos supersalários. Para Rafaela Vitória, medidas com maior credibilidade seriam a desvinculação de gastos obrigatórios e a redefinição das vinculações constitucionais.
Custo de vida e endividamento
O terceiro desafio é reverter o mau humor do eleitor causado pelo custo de vida e pelo endividamento recorde. Dados compilados por Bruno Imaizumi mostram que, em setembro, o salário mínimo de R$ 1.621 comprava 1,76 cesta básica, acima dos 1,61 de setembro de 2022, mas abaixo do nível pré-pandemia; o maior valor da série foi 2,28 cestas em março de 2012. O percentual de famílias endividadas caiu para 81,7% em setembro, na primeira retração do ano, segundo a CNC. Empresas, especialmente no varejo e no agronegócio, registram pedidos de recuperação judicial.
Para baratear alimentos e reduzir custos, Lula propõe manter valorização real do salário mínimo, ampliar Plano Safra da Agricultura Familiar, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a assistência técnica rural (ATER), reduzir o preço da energia e retomar participação da Petrobras na distribuição de combustíveis. Sua campanha também abriu mão de medidas para reduzir o endividamento por meio do Desenrola 3.0, que propõe comprar carteiras de dívidas com descontos de até 90% para limpar até R$ 150 bilhões em dívidas até meados de 2028, além de propostas como perdão de dívidas de MEIs.
Flávio Bolsonaro propõe reduzir impostos sobre consumo, simplificar encargos na conta de luz, criar “corredores logísticos inteligentes”, ampliar armazenagem de safras e estimular produção nacional de fertilizantes. Para o endividamento, sugeriu que a Caixa recompre dívidas e ofereceu carência de seis meses para famílias e um ano para empresas começarem a pagar; mercado financeiro reagiu negativamente, classificando a proposta de “calote bancário” nas redes sociais.
Analistas apontam que as medidas apresentadas por ambos os candidatos são, em grande parte, de curto prazo. Para reduzir estruturalmente o custo de vida e o endividamento seria necessário reequilibrar as contas públicas e reduzir juros, medidas que passam por reformas e pelo espaço fiscal a ser construído no governo.
O próximo presidente terá, portanto, de conciliar medidas de ajuste fiscal com políticas de estímulo ao crescimento e ações para aliviar o orçamento das famílias, em um contexto de crescimento econômico menor e de pressão dos mercados por credibilidade fiscal.
Com informações de G1




