As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos (midterms) tornaram-se um grande teste para as plataformas de mercados de previsão, que já movimentaram soma expressiva em apostas eleitorais. Kalshi e Polymarket acumulavam, juntas, US$ 1,48 bilhão — o equivalente a R$ 8,13 bilhões — em apostas relacionadas às midterms, segundo levantamentos citados.
Na tarde de terça-feira (3), os dados reunidos pela empresa de análise BetInt mostravam pouca variação em relação ao dia anterior: os mercados indicavam 94% de chance de os democratas conquistarem a maioria na Câmara dos Deputados e 75% de probabilidade de ficarem com o Senado.
Pressão sobre precisão e integridade
Analistas afirmam que, se o resultado das midterms divergir significativamente das previsões desses mercados, a reputação do setor poderá ser prejudicada — risco ampliado pelo volume recorde de dinheiro em jogo. Além dos resultados, há questionamentos sobre possíveis manipulações: candidatos chegaram a apostar nas próprias disputas, e um levantamento da organização sem fins lucrativos Anti-Corruption Data Collective (ACDC), de Washington, apontou que apostas relativamente pequenas podem influenciar os preços nesses mercados.
Especialistas ouvidos destacam que a disputa pelo Congresso servirá como termômetro do desempenho geral. “A terça-feira representa, de fato, um verdadeiro teste para a nova onda de mercados de previsão”, afirmou Yesha Yadav, reitora associada da Faculdade de Direito da Universidade de Vanderbilt.
Concentração de apostas e exemplos de mercado
A Kalshi informou que havia movimentado US$ 1,33 bilhão em apostas nas midterms, enquanto a Polymarket acumulava cerca de US$ 145 milhões, conforme estimativa da ACDC. Foram abertos mais de 28 mil mercados para as eleições; contudo, boa parte dos recursos estava concentrada em algumas disputas pelo Senado, como Texas, Michigan, Maine e Carolina do Sul.
Na disputa do Texas, os mercados apontavam 71% de chance de vitória do democrata James Talarico sobre o republicano Ken Paxton, e essa única disputa já teria atraído mais de US$ 60 milhões em apostas, segundo a ACDC. Em Michigan, mais de US$ 20 milhões foram apostados na corrida pelo Senado, com os mercados indicando 78% de probabilidade de vitória do democrata Abdul El‑Sayed sobre o republicano Mike Rogers, segundo a BetInt.
O que dizem estudos e operadores
Estudos acadêmicos apontam que, em termos gerais, as probabilidades desses mercados tendem a ser bem calibradas. Uma pesquisa da Universidade de Vanderbilt publicada em 2025 analisou quase 2.500 mercados ligados às eleições de 2024 e concluiu que as probabilidades apresentadas, em grande parte, refletiam corretamente as frequências observadas na prática. A calibração, ressaltam os autores, difere da precisão em identificar corretamente o vencedor em cada disputa.
Pesquisadores também observam limitações: como muitas eleições não são disputas acirradas, o bom desempenho agregado não prova eficácia em cenários muito apertados. Um pequeno grupo de apostadores experientes concentra grande parte do capital nesses mercados, segundo Harry Crane, professor de estatística da Universidade Rutgers; esses operadores utilizam pesquisas e outros dados para ajustar preços, mas também podem errar.
As empresas destacam ainda que um preço de mercado que atribui pequena probabilidade a um resultado — como as previsões que deram 20% a Luiz Inácio Lula da Silva contra Flávio Bolsonaro na eleição brasileira, ocorrida e confirmada em 25 de outubro — não torna esse resultado impossível, apenas menos provável segundo as cotações naquele momento.
O desempenho das plataformas nas midterms será acompanhado de perto por analistas, investidores e órgãos de fiscalização, enquanto as apostas seguem movimentando valores inéditos e alimentando debate sobre a utilidade e os riscos desses mercados.
Com informações de G1




