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terça-feira, outubro 27, 2026

A origem do teatro brasileiro: recorte entre mitos e registros coloniais

Revisão de um ponto de partida consagrado

O relato tradicional sobre as origens do teatro no Brasil, que atribui o nascimento da expressão cênica local aos jesuítas no século XVI, tem sido questionado por pesquisadores e por manifestações públicas de figuras como Ariano Suassuna. Em apresentações que viralizaram, Suassuna sustentou que o teatro grego nasceu na Grécia, mas que o teatro brasileiro não começou necessariamente com os jesuítas.

Esse questionamento leva a examinar lacunas na narrativa convencional: após a atribuição a Anchieta por volta de 1560, os manuais costumam pular até 1838, quando Martins Pena estreou Juiz de Paz na Roça, como se nada significante tivesse ocorrido no intervalo de três séculos. A obra de referência escrita a partir de documentos conservados tende a justificar essa transição, mas registros e relatos colhidos em arquivos e crônicas mostram que havia atividade teatral na colônia.

A Casa da Ópera de Manoel Luiz

Um exemplo citado é a Casa da Ópera de Manoel Luiz, erguida por volta de 1755/60 ao lado do Paço Imperial, em que a cidade então capital da colônia e depois do império dispunha de um edifício dedicado à arte. Durante mais de 50 anos foi, segundo relatos, o único espaço inteiramente voltado a espetáculos. Em 1808 recebeu o nome de Teatro Régio; em 1813 foi fechada e substituída pelo Real Teatro de São João, decisão que refletiu o desagrado de Dom João VI, que desejava um “teatro decente” e mais “digno de sua real pessoa”.

As atividades na Casa incluíam peças de autores como Antônio José, além de música e ocasionalmente ópera. O ambiente atraía grande público e apresentava uma produção criativa, por vezes caótica, ingrediente que motivou críticas de viajantes europeus e levou o Marquês de Lavradio a proibir a entrada de turistas no teatro.

Personagens, críticas e permanência

Manoel Luiz foi alvo de ridicularização por contemporâneos e por cronistas posteriores: descrito como puxa-saco e “soberanamente ridículo”, virou referência negativa em textos como os Folhetins de Martins Pena. Ainda assim, manteve uma companhia permanente por décadas, com elenco e músicos remunerados — uma prática incomum na história volátil do entretenimento local.

Registros também destacam a presença de artistas negros no elenco da Casa: nomes como Maria Joaquina da Lapa (Lapinha), cantora e atriz atuante em apresentações no Brasil e na Europa; João dos Reis, Capacho, Rosinha e Leandro Joaquim aparecem em relatos como intérpretes admirados pelo público. O padre José Maurício Nunes Garcia, maestro e compositor negro, também teve obras executadas no local.

Do europeísmo à reavaliação

Há quem proponha, seguindo questionamentos de Suassuna sobre a centralidade indígena, que a cena colonial — apesar das limitações e do processo de embranquecimento cultural posterior — tenha contribuído de forma significativa para a formação do teatro brasileiro. A reconstrução desse passado, mais artesanal e experimental, busca recuperar vozes e práticas apagadas por critérios eurocêntricos de excelência.

Por Celso Tádhei
Roteirista, escritor e professor formado em Artes Cênicas pela UNIRIO.

Com informações de Paranaibamais

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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