Setor agrícola brasileiro monitora proposta de tarifas dos EUA e efeitos indiretos
O agronegócio brasileiro inicia esta quarta-feira sob influência de uma combinação de fatores externos: petróleo em alta, renovada guerra comercial centrada nos Estados Unidos, tensão geopolítica no Oriente Médio e propostas de tarifas americanas que incluem parceiros como o Brasil.
A principal preocupação do setor não é apenas a possibilidade de perda direta de mercado, mas os efeitos indiretos associados às medidas. Empresários e produtores destacam o aumento da incerteza, a pressão sobre o câmbio e a alta de custos de fretes, fertilizantes, defensivos, energia e seguros. Em outras palavras, mesmo quando uma tarifa não incide sobre um produto específico exportado, os custos adicionais podem atingir o produtor.
A administração norte-americana propôs uma tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros no âmbito de uma investigação conduzida pela seção 301 da legislação dos EUA. A imprensa internacional aponta que a medida teria exceções importantes, como carne bovina, café, metais, energia e alguns produtos agrícolas, para evitar pressão extra nos preços ao consumidor americano.
Para o agronegócio, isso altera a leitura do cenário. Não se trata, ao menos por ora, de um embargo amplo contra o setor nacional, mas de um sinal relevante. O Brasil exporta para os Estados Unidos itens como café, carnes, produtos florestais, suco de laranja, açúcar, frutas, pescados e insumos agrícolas. Qualquer mudança tarifária, ainda que parcial, afeta contratos, margens e decisões de embarque.
O setor chega a esse momento em posição de força. As exportações do agronegócio brasileiro somaram US$ 38,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026, o maior valor histórico para o período, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária. Em abril, o setor registrou recorde mensal com US$ 16,6 bilhões exportados, com destaque para os complexos de soja, proteínas animais, produtos florestais e café.
Mesmo com esses resultados, há vulnerabilidades. A soja brasileira tem destino muito mais concentrado na China do que nos Estados Unidos, mas é afetada pela disputa comercial entre Washington e Pequim. Caso os EUA busquem recompor acordos agrícolas com a China, parte da demanda pode migrar temporariamente para a produção americana. Num cenário de escalada da disputa, o Brasil pode até ampliar presença em alguns mercados, porém com maior volatilidade de preços.
No segmento de carne bovina, a sensibilidade é maior: os EUA enfrentam restrições de oferta e dependem de importações para complementar o abastecimento, o que reduz a probabilidade de medidas severas contra a carne brasileira, embora riscos sanitários, políticos e comerciais persistam. O indicador Cepea/Esalq registrou R$ 352,30 por arroba em 2 de junho, alta diária de 0,60%.
O café também merece atenção. Os Estados Unidos são compradores relevantes, e a colheita brasileira tende a pressionar preços no curtíssimo prazo. Tarifas, atrasos logísticos ou mudanças nos fluxos comerciais podem afetar contratos e margens dos exportadores.
Além disso, o petróleo mais caro adiciona custo extra: com o Brent perto de US$ 100 por barril, aumentam despesas com transporte, frete marítimo, diesel, fertilizantes nitrogenados e operação no campo. Para um setor que já enfrenta margens comprimidas por juros, câmbio e custo de capital, energia mais cara funciona como um encarecimento adicional da produção.
O Brasil não enfrenta, no momento, uma ruptura imediata do mercado agro, mas vê crescer a dificuldade para precificar produtos. Produtores precisam acompanhar clima e safra, além de decisões em Washington, reação da China, comportamento do dólar, custo dos insumos e eventuais retaliações comerciais. O agro segue exportador e competitivo, porém sensível às mudanças na política comercial americana.
Com informações de Regionalzao




