Durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a economia brasileira apresentou indicadores positivos — com crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), queda do desemprego à mínima histórica e avanço da renda média do trabalho — mas esses resultados não foram suficientes para gerar uma percepção generalizada de melhora financeira entre os eleitores. Lula foi reeleito no segundo turno com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), em uma disputa apertada que expôs limites do ganho econômico na arena política.
Desempenho agregado e disparidades setoriais
O país registrou três anos seguidos de crescimento e expansão do emprego formal, ao mesmo tempo em que a renda real avançou. No entanto, especialistas alertam que as médias macroeconômicas ocultam diferenças relevantes entre setores e grupos de trabalhadores. Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV/Ibre, destaca que o PIB agrupa atividades que seguiram trajetórias distintas, com setores como agropecuária e extração dependendo de preços internacionais de commodities, enquanto comércio e parte da indústria reagem mais ao consumo doméstico.
O mercado de trabalho também se mostrou desigual: boa parte das vagas geradas concentrou-se em serviços de menor qualificação, segundo José Luis Oreiro, professor da UnB, sem criação equivalente de posições para trabalhadores com formação superior, que costumam receber salários maiores.
Rendimento, inflação e alimentos
O salário mínimo nominal em vigor — R$ 1.621 —, apesar de reajustes acima da inflação no período, permanece perto dos patamares reais de 2012 e 2013. Aplicando o INPC, os R$ 622 de 2012 equivaleriam a R$ 1.393 em setembro de 2026 e os R$ 678 de 2013, a R$ 1.424. Para famílias que ganham entre um e três salários mínimos, o aumento contínuo dos preços dos alimentos tem erodido o ganho do poder de compra, pois mesmo com desaceleração da inflação os valores não voltam a cair.
Endividamento e custo do crédito
Além da inflação, o custo do crédito e o aumento das dívidas pressionam o orçamento doméstico. Em julho de 2026, as famílias comprometeram 28,7% da renda mensal com pagamento de dívidas, sendo 17,2% para amortização do principal e 11,5% relativos a juros, valor próximo do recorde de 29,7% registrado em fevereiro. A proporção de famílias endividadas subiu de 78% em janeiro de 2023 para 81,7% em setembro de 2026, e o cartão de crédito aparece como modalidade mais presente, citado em 85,2% dos domicílios endividados.
O governo lançou três edições do programa Desenrola para renegociar dívidas. Especialistas avaliam que as iniciativas podem aliviar o curto prazo — a terceira edição buscou coordenar melhor com bancos e possibilitar descontos que podem superar 90% —, mas não alteram, por si só, fatores como juros altos, escassez de crédito de longo prazo e dificuldades de planejamento financeiro que favorecem novo endividamento.
Contas públicas, dívida e juros
As finanças públicas também exerceram pressão sobre a taxa de juros. As contas do Governo Central registraram déficits primários de R$ 228,5 bilhões em 2023, R$ 42,9 bilhões em 2024 e R$ 61,7 bilhões em 2025; entre janeiro e agosto de 2026, o saldo primário foi negativo em R$ 94,9 bilhões. Em agosto de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou 82,9% do PIB, cerca de R$ 11,1 trilhões.
Analistas apontam que reajustes do salário mínimo acima da inflação, vínculos de pisos de saúde e educação à arrecadação e expansão de benefícios contribuíram para a pressão sobre os gastos. A adoção da PEC da Transição, que permitiu despesas fora do teto então vigente, também foi criticada por ampliar desequilíbrios fiscais.
A trajetória da taxa Selic ilustra parte do contexto: começou 2023 em 13,75% ao ano, caiu a 10,5% em 2024, subiu a 15% em 2025 e estava em 13,75% próximo ao segundo turno de 2026. Juros elevados encarecem empréstimos e financiamentos, desestimulam consumo de bens duráveis e postergam investimentos empresariais, limitando o ritmo de expansão da atividade econômica.
Reformas, política monetária e industrial
Entre as medidas avaliadas como positivas está a reforma tributária sobre o consumo, vista por alguns economistas como capaz de reduzir distorções e simplificar regras, trazendo benefícios ao longo do tempo. A manutenção da independência do Banco Central e a condução da política monetária por Gabriel Galípolo, indicado por Lula, receberam avaliações favoráveis de alguns especialistas, embora parte do governo esperasse mudanças na política de juros com a sua nomeação.
Na política industrial, o programa Nova Indústria Brasil não conseguiu, segundo críticos, elevar substancialmente a participação da indústria de transformação no PIB nem gerar crescimento expressivo do emprego industrial, em parte devido aos juros altos e à valorização do real, que reduziram a competitividade das exportações manufaturadas.
O governo promoveu revisão de benefícios fiscais considerados obsoletos e tributação de fundos mantidos no exterior. Também buscou diversificar parceiros comerciais para reduzir dependência dos Estados Unidos e da China, em um contexto de novas tarifas impostas por Donald Trump a alguns produtos brasileiros e de choques nas cadeias globais por conflitos na Ucrânia e no Irã.
Fatores políticos e percepção pública
O sentimento em relação ao desempenho econômico foi influenciado por fatores políticos e sociais. Mudanças de valores e da composição do eleitorado, especialmente na chamada classe C, e a expansão de igrejas pentecostais alteraram parte das expectativas sobre o papel do Estado. Medidas como a retomada e ampliação do programa Minha Casa, Minha Vida, isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais e um Desenrola voltado a microempreendedores individuais não foram suficientes para consolidar apoio mais amplo entre esses eleitores.
Especialistas também destacam a frustração de expectativas: a comparação com o período de prosperidade de 2011 e 2012 criou expectativas que a recuperação observada entre 2023 e 2026 não conseguiu plenamente atender. A vitória eleitoral de 2026, por margem estreita, refletiu esse cenário em que avanços econômicos coexistem com limites na percepção pública sobre melhora no bem-estar material.
O balanço econômico do terceiro mandato de Lula, portanto, combina indicadores macroeconômicos positivos com desafios persistentes na distribuição dos ganhos, no custo do crédito, no endividamento das famílias e na sustentabilidade das contas públicas — fatores que continuam a influenciar tanto a vida financeira das famílias quanto o clima político do país.
Com informações de G1




