IBGE aponta queda, mas situação permanece expressiva
Em 2025, 1,499 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos estavam em situação de trabalho infantil no Brasil, segundo estimativas da PNAD Contínua divulgadas pelo IBGE. Desses, 525 mil exerciam atividades classificadas como as piores formas de trabalho infantil, que incluem tarefas perigosas e insalubres listadas na Lista TIP prevista no Decreto nº 6.481/2008.
O contingente na chamada Lista TIP representava 36,2% dos jovens ocupados em atividades econômicas naquele ano e corresponde ao menor total da série histórica. Em relação a 2024, quando a estimativa era de 560 mil pessoas nessas ocupações, houve queda de 6,3%. Em comparação com 2016, quando 919 mil crianças e adolescentes estavam em piores formas de exploração, a redução acumulada é de 42,9%.
O perfil dos que estavam nas piores formas mostra desigualdades: 72,6% eram meninos e 68,3% se declaravam pretos ou pardos. Entre esse grupo, 333 mil tinham entre 16 e 17 anos, mais de 60% dos casos.
Idade, sexo, cor e escolaridade
O trabalho infantil concentra-se entre os mais velhos: adolescentes de 16 e 17 anos respondiam por 58,1% do total em 2025, ou 871 mil pessoas, o que equivale a 14,5% da população dessa faixa etária. Entre jovens de 14 e 15 anos havia 348 mil em situação de trabalho infantil (5,9% da população dessa faixa) e entre crianças de 5 a 13 anos o número era de 280 mil (1,1%). Nesse último grupo, 190 mil crianças — 67,7% — realizavam apenas atividades voltadas ao próprio consumo, como produção de alimentos para a família.
No conjunto de crianças e adolescentes em trabalho infantil, 65,4% eram meninos e 34,6% eram meninas; 67% se declararam pretos ou pardos. A taxa de escolarização entre os que trabalhavam era de 86,9%, inferior aos 97,5% observados para toda a população de 5 a 17 anos. Entre os adolescentes de 16 e 17 anos, 79,6% dos que trabalhavam frequentavam escola, ante 89,6% do total dessa faixa etária.
Rendimento e informalidade
A renda média mensal dos jovens em trabalho infantil era de R$ 936. Entre os que ainda estudavam, o rendimento médio era de R$ 844, e entre os que haviam abandonado a escola era de R$ 1.326, diferença compatível com jornadas possivelmente mais longas daqueles fora da escola. Quanto à informalidade, 67% dos adolescentes de 16 e 17 anos que trabalhavam atuavam na informalidade — cerca de 705 mil pessoas — percentual que, segundo o IBGE, foi o menor da série (era 76,3% em 2022).
Distribuição regional
Em números absolutos, o Sudeste concentrou a maior quantidade de crianças e adolescentes em trabalho infantil, com 481 mil casos em 2025, seguido pelo Nordeste (408 mil), Norte (249 mil), Sul (233 mil) e Centro-Oeste (128 mil). Quando calculada em relação à população jovem de cada região, o Norte apresentou a maior taxa, de 6,3%, enquanto o Sudeste registrou a menor, de 3,3%.
Impacto do Bolsa Família e variações entre 2024 e 2025
A redução do trabalho infantil entre 2024 e 2025 ocorreu principalmente em famílias beneficiárias do Bolsa Família: houve queda de 20,1% nesse grupo, equivalente a 144 mil crianças e adolescentes a menos, o que representa mais de 95% da redução total de 151 mil casos no período. Em 2025, 573 mil jovens de 5 a 17 anos que viviam em famílias atendidas pelo programa estavam em situação de trabalho infantil, correspondendo a 4,4% das crianças e adolescentes nessas famílias. Ao todo, 13,1 milhões de crianças e adolescentes nessa faixa etária moravam em famílias beneficiárias, o que equivale a 34,7% da população de 5 a 17 anos. A renda média mensal per capita nas famílias beneficiárias era de R$ 660, ante R$ 1.990 nas famílias não beneficiárias. O IBGE ressalta, porém, que a comparação não permite atribuir toda a retração exclusivamente ao programa, pois outros fatores econômicos e sociais também influenciam a entrada de jovens no mercado de trabalho.
Fiscalização e denúncias
Em 2025, o Ministério do Trabalho e Emprego realizou 10.234 ações fiscais que resultaram no afastamento de 4.318 crianças e adolescentes do trabalho infantil — o maior número de afastamentos em dez anos. Minas Gerais registrou 830 afastamentos e São Paulo 629, os maiores entre os estados. Esses registros são muito inferiores ao total estimado pelo IBGE, o que evidencia a diferença metodológica entre a pesquisa domiciliar e a identificação por meio de ações de fiscalização, que tendem a se concentrar em situações de maior gravidade.
As dificuldades de combate incluem a informalidade, a dispersão dos locais de trabalho e a identificação de situações em ambientes privados, como o trabalho doméstico. Em 2025 aumentaram também as denúncias: o Disque 100 registrou cerca de 5,1 mil chamadas relacionadas ao trabalho infantil, alta de 19,4% em relação ao ano anterior, e o Ministério Público do Trabalho recebeu aproximadamente 7,9 mil denúncias, crescimento de 36,6%.
As regras legais brasileiras determinam que qualquer trabalho é proibido até 13 anos; aos 14 e 15 anos é permitida apenas a condição de aprendiz; e a partir de 16 anos o trabalho é autorizado, com restrições para menores de 18 anos quanto a atividades noturnas, perigosas, insalubres ou incluídas na Lista TIP.
Com informações de G1




