Thiago Morais da Silva Moita, 35 anos, afirma ter recorrido a uma medida extrema para interromper o ciclo de apostas on-line que consumiu cerca de R$ 340 mil de seu patrimônio: alistou-se nas forças ucranianas. Em entrevista ao Paranaíba Mais, ele relatou que, após meses no front e ter sobrevivido a bombardeios, não aposta mais e considera-se recuperado da ludopatia.
O vício que saiu do controle
Morais diz que fez a primeira aposta em fevereiro de 2024. Inicialmente teve ganhos, mas em pouco tempo passou a registrar perdas significativas. Em uma única madrugada, perdeu R$ 75 mil, momento que descreve como o ponto de ruptura. A partir daí, recorreu a cartões de crédito, reservas bancárias e empréstimos para tentar recuperar as perdas.
Segundo ele, tentou diversas alternativas para conter o problema: entregou o controle das contas à família, usou mecanismos de autoexclusão das plataformas, pesquisou sobre ludopatia e chegou a ficar sem trabalhar para não ter acesso a dinheiro. Nada foi eficaz, o que o levou a decidir por uma saída radical.
A decisão e a viagem
Em março, Thiago embarcou rumo à Ucrânia. Saiu do aeroporto de Viracopos, passou por Portugal e Holanda, seguiu até a Polônia e entrou de ônibus no território ucraniano. Seu objetivo, afirma, não era financeiro: embora o salário na guerra chegue a cerca de R$ 23 mil por mês e possa ultrapassar R$ 40 mil para quem fica na linha de frente, ele foi para ocupar a mente e tirar o foco das apostas.
Antes de ser enviado a missões, passou por 45 dias de treinamento com jornadas de até 12 horas diárias. A rotina militar tomou quase todo o tempo do dia e, segundo Thiago, ajudou a reduzir o contato com o celular e com as plataformas de apostas.
Experiências no front
Poucos dias após chegar, a casa onde estava hospedado foi atingida por um bombardeio. Thiago relata que escapou ao alertar colegas e se abrigar atrás de uma árvore; dois companheiros ficaram gravemente feridos e um segue hospitalizado. Em outra missão, ele perdeu um amigo brasileiro identificado como Lisboa, morto durante um ataque.
O episódio da guerra reforçou, para ele, a convicção de que o dinheiro não compensa o risco. “Hoje minha vida vale muito mais”, disse, segundo a reportagem.
Laços familiares e planos
Thiago é pai de um menino de 4 anos e mantém contato diário com a família por chamadas de vídeo. Seu pai tentou convencê‑lo a não viajar, oferecendo apoio financeiro, e chegou a dizer: “Você já apostou tudo. Agora vai apostar a sua vida?”, frase que o jovem afirma não ter esquecido. Após a partida, o pai reduziu as conversas, segundo Thiago.
As férias de Thiago estão previstas para o período entre novembro e dezembro, quando pretende retornar ao Brasil. Ainda não decidiu se voltará à Ucrânia para cumprir o restante do contrato militar.
Ao falar sobre o futuro, ele afirma que pretende transformar a experiência em uma causa e “lutar contra os jogos de azar” para evitar que outras pessoas passem pela mesma situação. Recomenda a quem enfrenta problema semelhante buscar informação sobre ludopatia, usar ferramentas de autoexclusão das plataformas e entregar o controle financeiro a familiares.
Depois de conviver com o risco diário no front e testemunhar perdas, Thiago afirma que a maior vitória foi pessoal: “Fui para a guerra para lutar contra mim mesmo. E essa luta, graças a Deus, eu consegui vencer.”
Com informações de Paranaibamais




