Resumo: A ideia de que o “café bom” produzido no Brasil é exportado enquanto sobra aqui o produto de baixa qualidade está ultrapassada. Mudanças na regulação, na fiscalização e no mercado ao longo das últimas décadas reduziram fraudes e elevaram a qualidade do café consumido no país.
O que aconteceu e por que surgiu a reputação
Nos anos 1980, a preocupação com a qualidade do café no Brasil era grande. Naquele período o Instituto Brasileiro do Café (IBC), criado em 1952, exercia controle principalmente sobre preço e volume, e a fiscalização da qualidade era ineficiente. Pesquisas e registros da época apontam fraudes comuns, como a mistura de cevada e milho aos grãos, conforme artigo do Inmetro de 1998. Uma lei de 1978 já estabelecia tolerância de até 1% de impurezas, mas, segundo relatos, a aplicação da norma era falha.
Transformação a partir de 1989
Em 1989 o IBC foi extinto e a autorregulação do setor passou a ser delegada à Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic). A associação lançou o Selo de Pureza, exigindo que embalagens comercializadas pelas indústrias associadas contivessem 100% de grãos de café. A Abic passou a realizar auditorias e a coletar amostras nas prateleiras; empresas em desacordo eram notificadas e, em casos, acionadas judicialmente. As campanhas publicitárias com o ator Tarcísio Meira — com o lema “Por trás desse selo, só tem café” — auxiliaram a reconstruir a imagem do produto na mídia, inclusive em novelas como Tieta, em 1990.
Novas regras, fiscalização e impacto no consumo
Dados citados pela Abic indicam que, em 1989, cerca de 30% do volume comercializado era fraudado; hoje esse índice estaria abaixo de 1%. A queda da qualidade e a consequente redução do consumo aparecem em estatísticas: em 1965 o consumo per capita anual era de 4,8 kg; em 1989 caiu para 2,27 kg.
Café especial e participação no mercado interno
A partir dos anos 1990, com o fim da intervenção estatal nos preços e avanço da fiscalização, produtores passaram a investir mais na qualidade. Em 1991 foi fundada a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), segmento que produz grãos 100% maduros e sem defeitos. O diretor-executivo da BSCA, Vinicius Estrela, afirma que esses cafés são mais exportados, embora o consumo doméstico tenha aumentado: em 2015 apenas 1% do café especial era consumido internamente; hoje essa fatia é de 15%.
Padronização recente e controle atual
Em 2022, o Ministério da Agricultura estabeleceu padrão para o café torrado, proibindo mais de 1% de impurezas e vedando a presença de elementos estranhos como corantes e açúcar; as regras entraram em vigor em 2023 e deram suporte a operações que recolheram marcas classificadas como “café fake”. A portaria 570, publicada em 2023, detalha essas normas. A Abic também ampliou e formalizou seu processo de certificação em quatro etapas: análise microscópica, prova sensorial às cegas, auditoria de boas práticas na indústria e monitoramento de amostras nas gôndolas.
As mudanças regulatórias e de fiscalização, somadas a investimentos de produtores, explicam por que o velho argumento de que “só o café ruim fica no Brasil” não descreve a realidade atual do mercado de café no país.
Com informações de G1




