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quarta-feira, outubro 14, 2026

Caminhoneiros ficam dias sem água e banheiro em fila no porto de Miritituba; caso expõe gargalos do transporte

Transmissão: Record

Fila de caminhões parou BR-163 e deixou motoristas sem condições básicas

Caminhoneiros que levaram a safra de soja até o porto de Miritituba, no Pará, relatam ter passado dias parados em filas sem acesso a água potável, banheiro ou locais para descanso. No fim de fevereiro, a fila chegou a 45 km e invadiu a BR-163, principal rota de escoamento dos grãos vindos do Mato Grosso para o Norte do país.

O motorista Álvaro José Dancini disse ter permanecido dois dias na fila e descreveu a situação como precária: banho no igarapé e uso do mato como sanitário. Jefferson Bezerra ficou 40 horas parado na estrada e mais 12 horas dentro do terminal portuário. Segundo ele, muitos motoristas sobreviveram com o que tinham dentro do caminhão, enquanto postos nas proximidades distribuíam água a alguns motoristas.

Além do desconforto, os caminhoneiros apontam prejuízos financeiros. Renan Galina afirmou que ficar dias parado reduz os ganhos, já que não há pagamento por estadia e o frete deixa de ser executado, comprometendo o faturamento esperado na safra.

Especialistas e representantes do setor atribuem o problema a um conjunto de limitações logísticas. Fernanda Rezende, diretora executiva da Confederação Nacional do Transporte (CNT), afirmou que cargas como grãos seriam mais adequadas a modais com maior capacidade, como ferrovias e hidrovias, mas a dependência do transporte rodoviário persiste. A CNT estima que apenas cerca de 12,4% das estradas do país são pavimentadas.

O professor Thiago Péra, da Esalq-USP, destacou o custo elevado dos caminhões: um consumo médio de cerca de um litro de diesel a cada 2 km. Em uma viagem de 2.000 km até o porto de Santos, por exemplo, o gasto pode atingir 1.000 litros. Péra observou que longas distâncias e infraestrutura insuficiente aumentam o custo do transporte e reduzem a competitividade do agronegócio brasileiro.

No caso de Miritituba, o acesso é feito exclusivamente por caminhão e os terminais têm recebido mais carga do que conseguem armazenar nesta época do ano, segundo relatos. A falta de armazéns faz com que parte da produção seja escoada imediatamente, transformando os caminhões em depósitos móveis; a CNT indica que o país tem capacidade para estocar cerca de 80% da produção agrícola.

Estradas sem pavimentação, vicinais em más condições, buracos e sinalização precária também foram apontados como causas de quebras e atrasos. Motoristas relataram danos em veículos por passagem por trechos esburacados, que geram custos extras com manutenção e reduzem a disponibilidade de veículos para transporte durante a colheita.

Segundo Péra, o baixo investimento em infraestrutura — entre 0,4% e 0,6% do PIB, frente a mais de 2% em países como Estados Unidos e China — contribui para a defasagem da malha ferroviária e dos armazéns frente ao crescimento da produção, perpetuando gargalos no escoamento da safra.

O acúmulo de caminhões nos portos, com falta de pátio para recepção e utilização da rodovia como área de espera, tem efeito direto sobre o preço do frete na época da colheita e sobre o faturamento dos motoristas, que relatam redução significativa de ganhos durante o período crítico entre janeiro e a primeira quinzena de março.

O relato dos caminhoneiros e as análises de especialistas mostram os pontos de pressão no transporte de cargas agrícolas, sobretudo em rotas que concentram grande volume de produção sem infraestrutura compatível.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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