Os planos de governo dos principais candidatos à Presidência em 2026 incluem propostas para ampliar a infraestrutura de computação do Brasil, com foco na instalação e expansão de data centers — edifícios que abrigam servidores para armazenamento e processamento de dados e essenciais ao funcionamento de sistemas de inteligência artificial (IA).
Em 20 de agosto, o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou em Macaíba (RN) a aquisição de um supercomputador voltado à IA, com investimento estimado em R$ 1 bilhão. O governo também informou outra iniciativa de computação avançada no Rio de Janeiro, em parceria com empresas chinesas.
Propostas dos presidenciáveis
Além de Lula, candidatos com maior intenção de voto apresentam iniciativas semelhantes. Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) defendem, em graus variados, incentivos para atrair data centers ao país. Augusto Cury (Avante) inclui IA e robótica em seu programa e trata a inteligência artificial como infraestrutura estratégica de Estado, mas não especifica propostas para construção ou expansão de data centers.
Caiado defende incentivos tributários condicionados a requisitos ambientais, tecnológicos e sociais, com destaque para energia renovável, eficiência hídrica, geração de empregos, qualificação e reserva de capacidade para universidades e centros de pesquisa. Flávio Bolsonaro e Zema enfatizam a atração de investimentos privados por meio de energia barata e regulatória favorável. Renan Santos propõe zonas econômicas especiais voltadas à IA, especialmente no Nordeste.
Limites e preocupações técnicas e sociais
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil alertam que ampliar a infraestrutura não garante, por si só, soberania digital. Luca Belli, professor da Fundação Getulio Vargas e coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade, afirma que a simples instalação de data centers pode transformar o país em um “quintal” para operadores estrangeiros, consumindo recursos locais sem promover transferência tecnológica. Para Belli, a estratégia deve prever parcerias com universidades, laboratórios, startups e governos locais para formar pesquisadores e desenvolver tecnologia nacional.
Igor Rodrigues Britto, diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), destaca a necessidade de esclarecer que tipos de data centers serão atraídos — se voltados ao armazenamento de dados públicos e privados brasileiros ou a serviços para grandes plataformas internacionais. Britto cita o exemplo do data center associado ao TikTok em Caucaia (CE) para alertar sobre consumo contínuo de energia e água, além de impactos como ruído para comunidades vizinhas.
O projeto de complexos privados também suscita questionamentos. O empreendimento da Scala no Rio Grande do Sul, previsto para Eldorado do Sul e Charqueadas, tem estimativa de até 5 GW de capacidade, segundo críticas do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (Lapin). Felipe Silva, diretor do Lapin, aponta problemas no licenciamento ambiental, falta de consulta a comunidades indígenas e sigilo sobre o fornecimento de energia e os custos envolvidos.
Contexto internacional e incentivos fiscais
Na arena internacional, a escolha de fornecedores e parcerias ocorre em meio à competição tecnológica entre Estados Unidos e China. Em julho, o Brasil assinou o acordo de criação da Waico — Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial — em Xangai, com participação de 29 países. A iniciativa busca cooperação técnica, formação profissional e compartilhamento de infraestrutura; o governo brasileiro afirma não pretender alinhar-se exclusivamente a nenhum dos blocos e descreve o país como “país-ponte”.
A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, reconheceu incertezas e riscos em entrevista publicada em 12 de agosto, mencionando pressões externas que podem afetar fornecimentos. Para especialistas como Belli, a alternativa plausível é diversificar parcerias e construir capacidades internas gradualmente, garantindo capacidade de escolha sem dependência única.
No plano doméstico, o Senado aprovou, no início de setembro, o projeto Redata — regime especial de tributação que prevê suspensão de impostos sobre importação, PIS/Cofins e IPI para empresas de data center, com estimativa de renúncia fiscal de R$ 5,2 bilhões em 2026. O texto estabelece contrapartidas, como uso de energia renovável ou de baixa emissão, direcionamento de pelo menos 10% da capacidade para processamento e armazenamento locais e indicadores de eficiência hídrica.
Críticos, incluindo o Lapin, afirmam que a proposta é insuficiente para garantir desenvolvimento tecnológico e salvaguardas socioambientais, e que a aprovação no Senado abriu margem para inclusão de combustíveis fósseis e energia nuclear, além de não exigir contrapartidas robustas para transferência de tecnologia.
As discussões continuam entre propostas de atração de investimentos, preocupações com impactos locais e a busca por um equilíbrio entre soberania digital e inserção em cadeias globais de tecnologia.
Com informações de G1




