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sexta-feira, outubro 16, 2026

China vinha se preparando para uma crise global do petróleo; agora sua resiliência é testada

Pequim construiu defesas energéticas ao longo de anos, mas a interrupção das exportações do Golfo provocada pela guerra no Irã está pressionando seu planejamento.

A economia global enfrenta turbulência desde que os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã no final de fevereiro, e a China, maior importadora mundial de petróleo, começa a sentir os efeitos. O conflito levou a ataques a navios e infraestrutura energética e ao fechamento, na prática, do Estreito de Ormuz, por onde circulam cerca de 20% do petróleo mundial — aproximadamente 20 milhões de barris por dia, segundo a Administração de Informações de Energia dos EUA (EIA). Em consequência, os preços do petróleo chegaram a se aproximar de US$ 120 por barril nas últimas semanas.

A interrupção das exportações do Oriente Médio obrigou países a buscar fornecedores alternativos e a acionar reservas estratégicas. A China consome entre 15 e 16 milhões de barris por dia, de acordo com analistas de mercado citados pela BBC, e direciona grande parte desse petróleo ao setor de transportes, com uso intenso em automóveis, caminhões e aviões. Uma parte importante das importações chinesas vem dos países do Golfo: Arábia Saudita e Irã respondem, cada um, por mais de 10% das compras chinesas, segundo a EIA.

Geograficamente, a maior parte do petróleo importado pela China chega do Irã e de outros países do Oriente Médio via mar do Sul da China. O sul do país depende fortemente dessas importações para alimentar fábricas e transporte; o norte, por sua vez, apoia-se sobretudo em produção doméstica e em óleodutos vindos da Rússia, cuja oferta não foi afetada pela guerra no Oriente Médio. O petróleo russo já representa cerca de 20% das importações chinesas, tornando Moscou o maior fornecedor de Pequim, mesmo diante de sanções americanas e europeias.

Apesar de Petróleo e gás representarem pouco mais de 25% da matriz energética chinesa, o carvão continua sendo a principal fonte de geração elétrica: a China é o maior produtor mundial de carvão e concentra mais da metade da produção global. Essa composição faz com que o país dependa menos de petróleo e gás do que a Europa ou os Estados Unidos.

Reservas e compras estratégicas

Nos últimos anos, Pequim aproveitou preços mais baixos e oferta abundante para formar uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, segundo Ole Hansen, chefe de estratégias de matérias-primas do Saxo Bank. Entre janeiro e fevereiro deste ano, a China importou 16% a mais de petróleo do que no mesmo período do ano anterior, de acordo com a administração de alfândegas do país.

Apesar das sanções dos Estados Unidos ao Irã, a República Islâmica tornou-se fornecedor importante de petróleo barato à China, e relatórios indicam que Pequim compra mais de 80% das exportações petrolíferas iranianas. Dados de acompanhamento de navios desde o início da guerra mostram que parte desse petróleo continua chegando ao país. O grupo de análises Kpler estima que mais de 46 milhões de barris de petróleo iraniano estejam atualmente armazenados em petroleiros ao longo do mar do Sul da China.

As estimativas sobre o total das reservas chinesas variam: Hansen afirma que o país acumula cerca de 900 milhões de barris — pouco menos de três meses de importação — enquanto números da Universidade Columbia, citados pela imprensa estatal chinesa, apontam para aproximadamente 1,4 bilhão de barris. Há incerteza também sobre quanto do que a China importa por dia é imediatamente consumido e quanto é direcionado às reservas estratégicas.

Em resposta ao aumento de preços, há relatos de que autoridades chinesas teriam ordenado a suspensão temporária das exportações de combustíveis por refinarias nacionais, numa tentativa de segurar os preços internos. A BBC consultou o governo chinês sobre o tema, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem.

Transição energética e limitações

Paralelamente à formação de estoques, a China acelerou a implantação de energias renováveis e se tornou líder mundial no setor. O Escritório Nacional de Estatísticas de Pequim indica que, em 2025, energia eólica, nuclear, solar e hidrelétrica responderam por mais de um terço da eletricidade do país, e estimativas recentes indicam que mais da metade da capacidade instalada atualmente vem de fontes limpas. Como consequência, o petróleo representou cerca de 20% do consumo total de energia em 2024.

A Agência Internacional de Energia (AIE) projeta que a demanda chinesa por petróleo dificilmente voltará a subir no futuro. A penetração dos veículos elétricos também ajudou a reduzir a dependência: ao menos um terço dos automóveis novos vendidos na China são elétricos, segundo analistas, o que diminui a exposição direta dos motoristas às variações internacionais do preço do petróleo.

No entanto, a economia chinesa não é imune a choques no abastecimento. A alta recente nos preços de combustíveis teve repercussão imediata: na semana passada, a gasolina e o óleo diesel subiram, respectivamente, 695 yuanes e 670 yuanes por tonelada, segundo o jornal estatal China Daily citando um relatório oficial. O encarecimento pode elevar custos para a indústria petroquímica e forçar a China a pagar mais por barril no mercado internacional.

Com a escalada dos preços e a restrição de oferta proveniente do Golfo, Pequim enfrenta agora a prova prática de anos de planejamento estratégico e investimento em reservas e energias limpas.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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