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domingo, outubro 18, 2026

Cinco anos após anúncio, projeto de Bukele para transformar El Salvador no “país do bitcoin” perdeu força e voltou ao dólar como moeda oficial

Projeto e promessas

O presidente Nayib Bukele anunciou em março de 2021, durante a conferência Bitcoin 2021 em Miami, que enviaria à Assembleia Legislativa um projeto para tornar El Salvador o primeiro país a adotar o bitcoin como moeda de curso legal. A proposta foi aprovada em junho de 2021 pela Assembleia controlada pelo partido Novas Ideias, e, em setembro daquele ano, o bitcoin passou a constar como moeda oficial ao lado do dólar, vigente há cerca de duas décadas.

O governo afirmou que a medida traria “prosperidade, liberdade econômica e inclusão financeira”, reduziria custos das remessas enviadas por salvadorenhos no exterior e facilitaria a inclusão de trabalhadores informais. Para viabilizar o plano, criou-se um fundo fiduciário de US$ 150 milhões, ofereceu US$ 30 a cada cidadão que instalasse a carteira digital Chivo e destinou US$ 50 milhões para caixas eletrônicos e despesas de implementação.

Adoção limitada e pesquisas

Pesquisas realizadas após a adoção revelaram ceticismo e baixa utilização. Um levantamento do Instituto Universitário de Opinião Pública (Iudop) indicou que 71% dos entrevistados afirmaram não ter percebido benefício econômico familiar com a medida. Relatórios do Escritório Nacional de Pesquisas Econômicas (NBER) mostraram que muitos usuários deixaram de usar a carteira Chivo após gastar o bônus inicial de instalação.

Em 2022, pesquisa da CID-Gallup apontou que apenas 20% das empresas aceitavam bitcoin e que 5% dos pagamentos de impostos eram feitos com a criptomoeda. Em visita de 2024, a BBC News Mundo observou uso restrito, concentrado sobretudo na área conhecida como Bitcoin Beach, em El Zonte. Em janeiro de 2025, novo levantamento do Iudop registrou que 91,8% dos salvadorenhos não haviam usado bitcoin no ano anterior e que 76,2% nunca o haviam utilizado.

Impacto nas remessas e nas finanças públicas

O impacto do bitcoin sobre as remessas permaneceu reduzido. Entre janeiro e abril de 2026, o valor enviado por carteiras digitais de criptomoedas subiu 44,3% na comparação anual, alcançando US$ 23,1 milhões — o equivalente a 0,7% dos US$ 3,286 bilhões de remessas no período, segundo o Banco Central de Reserva de El Salvador. Em 2025, remessas representaram 26,3% do PIB do país.

O governo seguiu comprando bitcoins ao longo dos anos, apesar da volatilidade do ativo; em 8 de outubro de 2026 o país contabilizava 7.798,37 bitcoins avaliados em US$ 636 milhões, segundo o Escritório Nacional do Bitcoin. Economistas consultados avaliaram que o investimento não trouxe o retorno esperado, mas também não implicou perda de recursos públicos em termos absolutos.

Títulos vulcão, Bitcoin City e legislação

Em janeiro de 2023, a Assembleia aprovou a Lei de Emissão de Ativos Digitais, que abriu caminho para a emissão de “títulos vulcão” — dívida lastreada em bitcoin — e para financiar a construção da Bitcoin City, projetada aos pés do vulcão Conchagua e abastecida por energia geotérmica para mineração. Essas iniciativas, contudo, não avançaram: os títulos não foram emitidos e a cidade não saiu do papel.

Pressão do FMI e recentes mudanças

Com dificuldades econômicas, o governo assinou em dezembro de 2024 um acordo de financiamento de US$ 1,4 bilhão com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que exigiu redução dos riscos relacionados ao bitcoin. Em seguida, a Assembleia aprovou alterações na Lei do Bitcoin que retiraram o status de curso legal da criptomoeda, deixando seu uso restrito a transações entre cidadãos e empresas privadas e tornando a aceitação voluntária.

Em processo relacionado às condições do empréstimo, o governo transferiu a participação majoritária e o controle da carteira digital estatal Chivo para uma empresa privada; o Estado segue como acionista. A empresa responsável foi identificada como Linguard Labs, mas valores e participação adquirida não foram divulgados. A parceria prevê relançamento da carteira com novos serviços, como transferências gratuitas de determinados remetentes, microcrédito e pagamentos com diferentes ativos digitais.

Legado e desfecho

Hoje, a adoção obrigatória do bitcoin foi revertida e as ambições mais grandiosas do projeto — a Bitcoin City e os títulos em bitcoin — permaneceram não realizadas. O país conservou reservas em criptomoeda e manteve legislação sobre ativos digitais, ao mesmo tempo em que ajustou políticas para atender às exigências do FMI e às realidades de uso da população.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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