Pai presente: a chegada de um filho não modifica apenas a rotina familiar; altera também o cérebro e o comportamento de muitos homens. Estudos descritos no livro O cérebro do pai indicam mudanças em imagens cerebrais e em atitudes de pais que se envolvem ativamente nos cuidados.
Enquanto a mãe convive fisicamente com o bebê durante a gravidez, a experiência paterna costuma começar de forma mais abstrata. Após o nascimento, tarefas como noites maldormidas, troca de fraldas, banho e alimentação tornam-se parte do dia a dia e exigem que o pai aprenda a interpretar os sinais da criança.
Exames de imagem apresentados pelo livro registram redução de massa cinzenta em áreas específicas do cérebro de pais participativos. Especialistas interpretam essa alteração não como perda, mas como um processo de otimização neuronal: circuitos menos prioritários são podados para reforçar a atenção às necessidades do bebê.
A adaptação cerebral pode vir acompanhada de mudanças comportamentais. Muitos homens precisam resignificar modelos de cuidado que receberam na infância e aprender tarefas domésticas e de educação. Em sociedades com divisão tradicional de papéis, essa aprendizagem encontra obstáculos porque alguns pais simplesmente não foram ensinados a cuidar.
O envolvimento pode ser ainda mais complexo quando a criança é neurodivergente. Um dos relatos incluídos mostra um pai que vende churros para financiar tratamentos — com acompanhamento de psicólogo, psiquiatra e psicopedagogo — e que assume a busca por medicamentos, idas a emergências e permanência hospitalar quando necessário.
Presença não se resume a recursos financeiros. A pesquisa aponta relação entre menor renda e menor chance de o pai morar com o filho, mas também registra homens que priorizam a convivência mesmo diante de dificuldades. Gestos de escuta, como abaixar-se para falar com a criança, exemplificados em imagens do príncipe William, são associados à regulação emocional e ao autocontrole do adulto.
A paternidade pode afetar a saúde mental: cerca de um em cada dez pais pode apresentar irritabilidade ou tristeza após o nascimento. Mudanças hormonais, privação de sono e alterações metabólicas também contribuem — inclusive para ganho de peso observado em alguns homens. Pesquisas em animais, nas quais machos engordam antes ou depois do nascimento da prole, ajudam a formular hipóteses sobre essas transformações.
O modelo tradicional do pai provedor tem perdido espaço com a inserção crescente das mulheres no mercado de trabalho. Ainda assim, comparações entre o envolvimento dos parceiros e a experiência pessoal podem gerar avaliações distintas sobre o que é participação adequada. Mães que controlam excessivamente o cuidado do pai podem, sem querer, reduzir seu protagonismo; por isso, especialistas citados no livro recomendam cobrar presença e permitir que cada pai desenvolva seu próprio jeito de cuidar.
Quando o pai fica sozinho na criação, o desafio aumenta. O texto cita o exemplo de Deco, parte dos cerca de 1,2 milhão de pais solo no Brasil, que concilia trabalho, escola e casa, enfrentou o fechamento do restaurante onde trabalhava, buscou apoio psicológico e transformou parte da vivência em composições musicais.
O livro também destaca a necessidade de redes de apoio: com urbanização e distanciamento familiar, a antiga “aldeia” que ajudava na criação enfraqueceu, tornando mais difícil a tarefa mesmo para dois adultos. A ausência de suporte não deve ser vista apenas como incapacidade individual, já que criar um filho exige recursos humanos e materiais substanciais.
Por fim, a participação paterna traz benefícios para as crianças — melhores habilidades sociais, saúde mental e rendimento escolar — e para os próprios homens, que tendem a adotar hábitos mais saudáveis e reduzir comportamentos de risco. Ao mesmo tempo, celebrar essa mudança não elimina a sobrecarga histórica das mulheres, que continuam sendo as principais responsáveis pelos cuidados em muitas famílias. Segundo o livro, quanto maior o engajamento dos pais, menor tende a ser a carga sobre as mães, promovendo relações familiares mais equilibradas.
Com informações de G1




