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sexta-feira, outubro 23, 2026

Data centers de IA transformam Brasil e Argentina em polos estratégicos, mas aumentam riscos à soberania digital

A expansão de grandes data centers voltados à inteligência artificial (IA) está reposicionando países do Sul Global como locais estratégicos para empresas como Microsoft, Google e Amazon. Nos últimos dois anos, anúncios bilionários sobre novos complexos de computação em nuvem se multiplicaram, com Brasil e Argentina despontando como destinos preferenciais graças a oferta de território, energia e incentivos fiscais.

O movimento tem ocorrido em diferentes níveis: no Brasil, governos federal e estaduais, incluindo São Paulo e Bahia, comemoraram a chegada de centros de processamento ligados a grandes empresas de IA; na Argentina, projetos avançam em áreas industriais próximas a Buenos Aires e Córdoba. No discurso oficial, esses empreendimentos são apresentados como impulso à modernização e à atração de inovação.

Na prática, contudo, especialistas identificam uma lógica de inserção periférica: os investimentos vêm financiados do exterior, com exigência reduzida de conteúdo local e impacto limitado na formação de capacidade tecnológica nacional. Esse padrão repete práticas observadas em setores como mineração e energia, mas agora envolve também dados, eletricidade e infraestrutura digital — recursos que vão definir parte da economia nas próximas décadas.

Demanda por energia e água

Data centers de IA exigem volumes muito elevados de energia e sistemas de refrigeração. Estudos citados indicam que a operação de um único complexo pode consumir o equivalente ao abastecimento de uma cidade média, além de grande quantidade de água para resfriamento. Em países com sistemas elétricos já sob pressão, como Brasil e Argentina, essa demanda pode competir com consumo residencial e expansão industrial, criando “bolsões de privilégio energético” quando combinada com tarifas subsidiadas e incentivos fiscais.

Outro aspecto apontado é a assimetria informacional e contratual: acordos com multinacionais frequentemente carecem de cláusulas de transparência e de repartição de benefícios. Dados processados localmente — inclusive informação pública e de usuários nacionais — tendem a ficar sob controle de sistemas proprietários geridos no exterior, limitando a captura de valor intelectual e econômico pelos países hospedantes.

Soberania digital e alternativas

O conceito de soberania digital, segundo a análise, refere-se à capacidade do Estado de controlar, proteger e direcionar estrategicamente dados, infraestrutura e fluxos de conhecimento. No Brasil, políticas de transformação digital avançaram de forma fragmentada, sem coordenação entre Estado, empresas e universidades, o que dificulta exigir transferência de conhecimento, parcerias com centros de pesquisa ou transparência energética e de dados.

Como alternativas, países na Ásia e na Europa vêm impondo condições mais rígidas aos investimentos — obrigações ambientais, compromissos de inovação local e limites ao controle estrangeiro sobre dados sensíveis. Na América Latina, Chile e Uruguai já adotaram medidas que vinculam incentivos fiscais a comprovação de benefícios tecnológicos e de sustentabilidade.

A análise ressalta que a atual onda de investimentos em IA ocorre num contexto de reconfiguração geopolítica, em que infraestrutura digital é asset estratégico. Se os países da região limitarem-se a receber capitais e equipamentos sem políticas coordenadas de soberania digital, consolidarão posição como territórios de processamento com retorno econômico e poder decisório reduzidos; por outro lado, políticas públicas articuladas poderiam transformar a presença de data centers em motor de capacitação técnica e autonomia tecnológica.

Armando Alvares Garcia Júnior afirmou não prestar consultoria, não trabalhar para, não possuir ações nem receber financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste texto, sem vínculo relevante além do cargo acadêmico.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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