Resumo: A expressão “cultivar aura”, popular nas redes sociais, descreve um magnetismo social que não é novidade: trata-se de uma preocupação histórica em projetar distinção reconhecível pelos outros. A prática reaparece hoje nas plataformas digitais, onde comportamentos e gestos recebem pontuações e viram conteúdo.
Nas redes sociais contemporâneas, ter “aura” significa exibir presença, confiança, estilo ou mistério de modo a parecer naturalmente interessante. O ato de “cultivar aura” reúne práticas destinadas a aumentar esse prestígio percebido: resolver situações embaraçosas com naturalidade soma pontos simbólicos, enquanto tropeços ou tentativas excessivas de parecer descolado provocam perda de status. O Dicionário Cambridge já registra a expressão como a prática de agir para projetar uma personalidade atraente ou interessante. Na internet, isso ganhou até um vocabulário de pontuação — termos como “+1.000 pontos de aura” ou “aura infinita” — que tornam a brincadeira compreensível para quem participa das redes.
O fenômeno, entretanto, remonta a séculos. No século 17, a corte de Versalhes sob Luís 14 exemplificou uma versão estatal desse cultivo: cerimônias, etiqueta, vestuário e controle das aparições públicas eram instrumentos para indicar posição social. A performance do rei e do palácio dependia de uma arquitetura de prestígio que exigia plateia e protocolo.
No início do século 19, George “Beau” Brummell representou outro modelo histórico. Seu estilo, baseado em precisão, sobriedade e atenção a detalhes, valorizava a aparência de despreendimento — uma combinação de preparo minucioso e aparente ausência de esforço que também é central ao que hoje se chama aura. Cinco séculos antes, em 1528, Baldassare Castiglione já havia formulado o conceito de sprezzatura em O Cortesão: a habilidade de executar algo difícil fazendo-o parecer fácil, ocultando o artifício.
As chamadas “batalhas de aura” observadas nas redes retomam dinâmicas de confrontos artísticos como as competições de breakdance surgidas na cena hip-hop de Nova York nos anos 1970. Nessas disputas não basta habilidade técnica; conta também atitude, resposta ao adversário e dominação do cenário. A atual competição digital transforma carisma e presença em objetivos mensuráveis por gestos, poses e memes.
Diversos teóricos aparecem no debate sobre o tema. Pierre Bourdieu descreveu como gostos e competências funcionam como capital cultural e, quando reconhecidos, tornam-se capital simbólico — ou, em termos contemporâneos, “pontuação de aura”. Georg Simmel analisou a moda como tensão entre imitação e diferenciação; Erving Goffman comparou a vida social a performances para públicos variados; e Walter Benjamin usou a palavra “aura” para discutir a singularidade de uma obra diante de sua reprodução técnica. Nas mídias sociais, os bastidores viram conteúdo: fotos e vídeos que aparentam espontaneidade muitas vezes são fruto de preparo e direção.
A expressão “cultivar aura” pode ficar em voga por um período breve, mas o comportamento que ela nomeia — buscar e sinalizar distinção reconhecível pelos outros — persiste em diferentes formas ao longo do tempo. Hoje, o TikTok e outras plataformas apenas tornaram essa dinâmica mais visível e mensurável.
Com informações de G1




