Uma postagem no X desencadeou uma discussão nas redes sociais ao associar o aumento do uso da vírgula para isolar vocativos — como em “Oi, Vanessa” ou “Bom dia, professora” — ao emprego de ferramentas de inteligência artificial. A autora da publicação afirmou ter percebido, de repente, maior presença desse sinal gráfico nas mensagens e disse que “o ChatGPT escreve assim”; o post, posteriormente, foi excluído.
O relato chamou atenção de usuários que afirmaram observar a mesma mudança, especialmente em comunicações corporativas, enquanto outros contestaram a conclusão de que o uso da norma culta seria prova de produção por IA. A controvérsia surge pouco depois de outra polêmica sobre o travessão, que também foi apontado por alguns como indicativo de textos gerados pelo ChatGPT.
Função da vírgula no vocativo
Especialista em soluções educacionais da Arco Educação e doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela UNESP, Silvia Maria Brandão, explica que o vocativo serve para marcar interlocução direta — ou seja, para indicar com quem se fala. Na fala, essa marca é percebida pela entonação; na escrita, a vírgula cumpre o papel de orientar a leitura e evitar ambiguidades.
A vírgula tem diversas funções na língua, entre elas separar elementos de uma lista, isolar apostos e antecipar conjunções adversativas, mas, neste caso, sua função é indicar que um termo dirige-se a alguém. O sinal é parte das regras da norma padrão e aparece com frequência em obras literárias de autores clássicos, o que demonstra seu uso consolidado historicamente.
Silvia Brandão observa que a escrita digital fez cair o uso consistente da vírgula, com formatos informais em que sinais de pontuação e acentuação são frequentemente omitidos — exemplos citados incluem “bom dia mãe”, “oi chefe” e “oi joão”, sem separação por vírgula. A especialista diz que, em muitos casos, a ausência do sinal deixa de ser notada ou compreendida por leitores mais acostumados ao registro informal.
Além do impacto estilístico, a falta da vírgula pode gerar ambiguidades. Um exemplo apontado é a diferença entre “É preciso de regime, militar” e “É preciso de regime militar”: sem a vírgula, o sentido da frase muda significativamente. Segundo a linguista, as gramáticas normativas existem justamente para evitar esse tipo de equívoco, e o uso correto da pontuação continua sendo relevante, sobretudo em contextos formais.
O debate nas redes expõe tanto a mudança de hábitos na escrita digital quanto a percepção de que certos usos da norma padrão reaparecem e surpreendem leitores acostumados ao registro mais enxuto das postagens online.
Com informações de G1




