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domingo, outubro 25, 2026

Desenrola 2.0 oferece descontos para renegociação, mas não resolve causas do endividamento no país

O governo federal lançou na segunda-feira (4) o Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas que promete descontos entre 30% e 90% dependendo do tipo de débito e tem como público trabalhadores com renda de até R$ 8.105 mensais. A iniciativa busca reduzir a inadimplência e facilitar a limpeza do nome de milhões de brasileiros, mas especialistas ouvidos alertam que a medida pode ter efeito mais imediato do que duradouro.

Profissionais de finanças ressaltam que, apesar de facilitar acordos, o programa não enfrenta problemas estruturais que ajudam a manter altos níveis de endividamento, como o fácil acesso a crédito com juros elevados, a falta de educação financeira e o impacto emocional das dívidas. Para a planejadora financeira Myrian Lund, o excesso de oferta de crédito é parte central do problema e o Desenrola deveria vir acompanhado de ações educativas para gerar mudanças permanentes no comportamento do consumidor.

Outro alerta vem da planejadora Mônica Cardoso, que recomenda cautela nas renegociações para evitar que uma dívida quitada dê lugar a outra. Ela destaca que formar uma reserva não é solução definitiva e que é preciso disciplina para não voltar a se endividar após algum tempo.

Casos reais ilustram armadilhas do crédito

O empresário Delano Zonta relata trajetória de endividamento crônico: desembolços pessoais misturados com recursos da empresa, uso abusivo do cartão de crédito e sucessivos empréstimos para cobrir dívidas antigas. Acumulou mais de R$ 230 mil em passivos e, com apenas R$ 42 na conta, ganhou R$ 35 mil na quina da Mega-Sena. Ele afirma que recebeu o prêmio às 11h e que, às 14h30 (Brasília UTC-3), já não tinha mais nenhum real, pois quitou parte das obrigações mas ainda ficou com mais de R$ 216 mil de dívida.

Após esse episódio, Zonta reorganizou as finanças, contou com apoio da esposa e levou quase quatro anos para quitar todas as parcelas — a última, de R$ 316, foi paga em janeiro de 2020. No mesmo ano, iniciou formação como planejador financeiro e hoje trabalha com educação financeira.

O coordenador do curso de ciências contábeis Wagner Pagliato relaciona casos de endividamento crônico à decisão de consumo desalinhada com a renda e à pressão por manter padrão de vida. Ele observa que dívidas podem gerar estresse, ansiedade e afetar a saúde emocional, e que eventos inesperados — como doenças ou perda de renda — podem desorganizar orçamentos mesmo de famílias com rendas estáveis.

Exemplos citados no levantamento incluem Fernanda*, que teve o celular roubado no fim de 2024; além de compras de cerca de R$ 40 mil no cartão, criminosos fizeram um empréstimo de R$ 150 mil em seu nome, o que levou o banco a usar recursos de sua conta para abater parte da dívida, resultando numa situação em que uma dívida de R$ 30 mil passou a ser R$ 112 mil por causa dos juros. Ela afirma que avalia se inscrever no Desenrola 2.0 para tentar regularizar a situação.

A secretária Tatiana* relata ter comprometido o benefício do INSS e contraído dívidas para ajudar um parceiro, incluindo um empréstimo consignado e gastos de uma viagem. Mesmo com dificuldades, manteve acesso a crédito e recebeu aumento de limite pelo banco, chegando a R$ 10 mil, o que aprofundou o problema até que mudou hábitos de consumo com apoio de uma planejadora financeira.

Orientações para sair do endividamento

Especialistas defendem que o primeiro passo é um diagnóstico financeiro detalhado, com levantamento de todas as dívidas e da renda disponível. Em seguida, recomendam classificar os débitos por taxa de juros e priorizar o pagamento dos mais caros. Mudanças no padrão de consumo e apoio profissional para definir o momento adequado de renegociar também são apontados como essenciais. Myrian Lund e outros ouvidos destacam que a negociação pode exigir várias tentativas e que o devedor precisa juntar recursos e fazer sacrifícios para liquidar as dívidas.

Embora o Desenrola 2.0 possa reduzir a inadimplência e reinserir consumidores no mercado de crédito, especialistas consideram que, sem medidas complementares, o programa deve gerar resultados mais imediatos do que transformações estruturais no comportamento financeiro da população.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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