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quinta-feira, outubro 22, 2026

Doação de R$2 milhões a Tarcísio e ligações entre Banco Master, Tanure e privatizações da Emae e Sabesp

Uma doação de R$ 2 milhões feita por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro — controlador do Banco Master — à campanha do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em 2022 voltou a ser apontada como um elo entre o governo estadual e interesses ligados ao banco no processo de desestatização de empresas públicas em São Paulo.

Quem é apontado e por que

As privatizações da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia) e da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), realizadas em 2024, envolveram atores que, segundo apurações da Polícia Federal, teriam relação com o empresário Nelson Tanure, identificado como sócio oculto do Banco Master e chamado de “comandante” por Vorcaro. Tanure é alvo de investigação pelo Banco Central, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal.

Fundo Phoenix e aquisição da Emae

No início de 2024 foi constituído o Fundo Phoenix, lastreado em ações da Ambipar, cuja presidência do conselho era de Carlos Piani — hoje presidente da Sabesp. O fundo, com Tanure como beneficiário final, era administrado pela Trustee DTVM, uma distribuidora ligada ao Banco Master. Em abril de 2024, o Fundo Phoenix venceu o leilão da Emae por R$ 1,04 bilhão.

Entre abril e outubro de 2024 as ações da Ambipar registraram alta de mais de 700%. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) passou a investigar suspeitas de que fundos associados ao Master e a Tanure teriam atuado para inflar artificialmente o valor da Ambipar. O Phoenix financiou a compra por meio de debêntures e de um empréstimo da XP; os recursos em caixa da Emae foram subsequentemente aplicados em debêntures da Light e em CDBs do Banco Master, segundo a matéria.

Negociações pela Sabesp

Em junho de 2024, Tanure e executivos do Banco Master teriam procurado o BNDES para viabilizar um empréstimo visando a compra da Sabesp. Participaram das reuniões Tanure, Reinaldo Hossepian (diretor do Banco Master) e Karla Maciel, então assessora de fusões e aquisições do banco. Maciel chefiou a área de M&A durante as negociações da Emae e assumiu a direção-executiva da Emae em outubro de 2024, permanecendo até dezembro de 2025.

Em julho de 2024, a Equatorial Energia ficou com 15% das ações majoritárias da Sabesp, anunciada como única concorrente no processo de desestatização. Na época, Carlos Piani presidia o conselho da Equatorial. O processo levantou questionamentos: a Sabesp, que apresentou lucro de R$ 56,2 bilhões, teve a venda de 15% das ações por R$ 6,9 bilhões e, no total, a operação captou cerca de R$ 15 bilhões. Em 13 de fevereiro de 2026 as ações da Sabesp chegaram a R$ 152,50, alta de aproximadamente 127% em relação ao preço de venda.

Conflitos de interesse e questionamentos

Karla Bertocco, que presidiu o Conselho de Administração da Sabesp meses antes de integrar o conselho da Equatorial, também foi apontada como possível conflito de interesse. Bertocco ocupou cargos no governo estadual, na própria Sabesp e no BNDES, e permaneceu no conselho da Equatorial até dezembro de 2023. Em julho de 2024 a federação PT‑PCdoB‑PV na Assembleia Legislativa de São Paulo protocolou representação no Ministério Público estadual solicitando apuração de conflito de interesse e dano ao interesse público.

Carlos Piani deixou os conselhos da Ambipar e da Equatorial para assumir a presidência da Sabesp em outubro de 2024 e passou a ser associado ao plano de recompra da Emae pela Sabesp por meio de um fundo que teria estruturado.

Movimentações financeiras e investigações

Em janeiro de 2025, com Tanure à frente do Conselho de Administração da Emae, a empresa adquiriu R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, ligado ao mesmo grupo do Banco Master. Em maio de 2025 a CVM passou a investigar a elevação do preço das ações da Ambipar como possível artifício para beneficiar a aquisição da Emae por Tanure. Em outubro de 2025, Tanure deixou de quitar o empréstimo tomado na XP, que executou a dívida e assumiu a Emae; posteriormente, sob a gestão de Carlos Piani, a Sabesp comprou a Emae do Fundo Phoenix.

Trâmites judiciais e representações

No início de abril deste ano o Supremo Tribunal Federal rejeitou duas ações que pediam a suspensão do processo de privatização da Sabesp: a ADPF 1180, apresentada por partidos incluindo PSOL, Rede, PT, PV e PCdoB, que questionava a Lei municipal 18.107/2024; e a ADPF 1182, movida pelo PT contra a Lei estadual 17.853/2023. O sindicalista José Faggian classificou o processo como “muito suspeito”.

Em março deste ano o deputado estadual Antonio Donato (PT‑SP) protocolou no Ministério Público de São Paulo representação que pede investigação sobre possível lesão ao patrimônio público e conflito de interesses decorrente de doações de campanha, estrutura do leilão da Sabesp, preço de venda e recompras envolvendo Emae. O pedido ainda está em análise.

Posicionamentos oficiais

A Sabesp afirmou que a aquisição da Emae foi aprovada pelo Conselho de Administração e avaliada por órgãos reguladores como CADE e ANEEL, negando qualquer relação entre Carlos Piani e o Fundo Phoenix ou com a valorização apontada pela reportagem. A empresa também afirmou que não houve conflito de interesse por parte de Karla Bertocco.

A Emae informou que suas operações financeiras constam em demonstrações auditadas e disponibilizadas à CVM e ao mercado, sem explicar a atuação simultânea de Bertocco nos conselhos da Sabesp e da Equatorial. A Secretaria de Parcerias em Investimentos do governo de São Paulo disse que os processos de desestatização seguiram estudos técnicos, consulta pública e os ritos do Programa de Parcerias em Investimentos (PPI‑SP). A reportagem não obteve resposta da CVM nem da defesa de Nelson Tanure até a publicação.

As apurações e representações citadas permanecem em andamento, sem definição pública de desfecho.

Com informações de Uberlandianofoco

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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