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domingo, outubro 25, 2026

Epidemia de violência contra professores: relatos e pesquisas mostram amplo impacto no Brasil

Relatos de agressão, ameaças e violência física se multiplicam entre professores brasileiros, segundo pesquisas e profissionais entrevistados.

Em março de 2023, a professora conhecida como Marta, que trabalha em uma escola municipal na Zona Oeste de São Paulo, diz ter sido ameaçada de morte pelo pai de um aluno do 1º ano do ensino fundamental. O pai, conforme o relato da educadora, havia ligado para a escola afirmando que “ia matar aquela vagabunda”. O motivo apontado pela família foi a insatisfação com o desempenho escolar do filho de 6 anos, que enfrentava dificuldades na adaptação da educação infantil para o ensino fundamental.

Marta conta que soube da ameaça pela coordenadora quando já estava em seu segundo emprego e que registrou boletim de ocorrência na delegacia, onde passou a noite acompanhada apenas pelo marido. Sem apoio da gestão escolar, foi afastada do trabalho por orientação de uma psiquiatra e optou por não representar criminalmente contra o agressor. A Prefeitura a remanejou para outra unidade, mas a professora relata impacto psicológico severo e medo pela proximidade da comunidade onde mora.

Dados e pesquisas

Uma pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 professores aponta que 65% dos entrevistados já sofreram algum tipo de agressão em sala de aula ou no ambiente escolar. Entre as formas de violência relatadas, 71% referem-se à violência verbal; 58%, à violência psicológica e moral; 27%, à institucional; e 19%, à física.

O tema ganhou nova visibilidade após o caso da professora Michele Ramos, em São José dos Campos, que registrou boletim de ocorrência depois de encontrar uma lâmina de vidro em seu copo de água durante a aula. A Secretaria de Educação e Cidadania de São José dos Campos não respondeu ao pedido de esclarecimentos até a publicação desta reportagem.

Casos extremos e deficiências de estrutura

Organizações e profissionais apontam variadas formas de violência. A psicóloga Renata Paparelli (PUC-SP) identifica a “violência da escola” (decorrente de políticas públicas inadequadas), a “violência na escola” (atuação de alunos contra educadores e gestão ineficaz) e a “violência contra a escola” (depredações e perda de prestígio institucional).

Exemplos de episódios graves incluem o caso de Pedro, professor de 40 anos em escola municipal no bairro de Santana (Zona Norte de São Paulo), que em 2024 foi agredido com um soco por um aluno com autismo durante atividade sobre o Dia do Orgulho LGBTQIAP+. Pedro optou por não se afastar por muito tempo, apesar de ter recebido a opção de registro de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT).

Na Zona Leste de São Paulo, a professora Michelle Bernardes teve o dedo médio da mão direita parcialmente decepado quando um aluno com deficiência intelectual, em crise de desregulação, chutou a porta da sala durante uma confusão. Michelle passou por duas cirurgias e aguarda recuperação para iniciar fisioterapia. Ela afirma que o estudante não é culpado por estar desregulado, mas defende políticas públicas que apoiem com qualidade a inclusão de estudantes com deficiência.

Resposta das autoridades e impacto na saúde mental

A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo informou que promove iniciativas como o Programa Entre Nós, Comissões de Mediação de Conflitos (CMCs) e ações formativas em parceria com o Instituto Vladimir Herzog. Sobre inclusão, informou estar ampliando professores especializados e apoio à inclusão nas 13 Diretorias Regionais de Educação, e que o número de Auxiliares de Vida Escolar (AVEs) aumentou 144% a partir de abril deste ano, totalizando 2.937 profissionais.

Renata Paparelli alerta para o efeito acumulado da violência na saúde mental dos educadores: burnout, depressão e transtorno do estresse pós-traumático são problemas relatados em atendimentos clínicos. Dados do Centro do Professorado Paulista relativos aos professores estatutários da rede estadual de São Paulo mostram que, em 2024, foram concedidas mais de 42 mil licenças por transtornos mentais e comportamentais — mais de 115 por dia — e que, em 2025 até setembro, já havia mais de 25 mil licenças por problemas de saúde mental.

A Secretaria Municipal de Gestão de São Paulo informou ter realizado 55 grupos de avaliação entre 2025 e 2026, com 1.043 servidores, e que o Programa de Orientação e Proteção em Saúde Mental dos Servidores (Rede Somos) acolheu 720 servidores e realizou 2.228 ações de saúde no mesmo período.

Propostas e divergências sobre soluções

Para enfrentar o problema, as propostas divergem. O Centro do Professorado Paulista defende atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para responsabilizar alunos em casos de violência e corresponsabilizar pais, conforme a advogada Ana Carolina Soares. Já Roberto Guido, presidente interino da Apeoesp, considera improvável a mudança no ECA e defende melhoria das condições de trabalho dos professores e aproximação entre escola e comunidade como formas de reduzir a violência. Renata Paparelli também ressalta a necessidade de equipe adequada, número razoável de alunos por sala e jornada de trabalho que permita integração com famílias e estudantes.

O Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (Onve-UFF) registra ainda avanço de perseguição a professores — incluindo censura, intimidação, exposição em redes sociais e assédio jurídico — com estudo de mais de 3 mil educadores indicando que 61% dos professores da educação básica e 55% do ensino superior já sofreram esse tipo de violência. Paparelli alerta que a violência não é exclusividade das escolas públicas, mas que faltam dados robustos sobre a rede privada.

Os relatos e números mostram um panorama complexo, com efeitos diretos sobre a integridade física e psicológica de educadores e que apontam para a necessidade de ações em várias frentes, da gestão escolar às políticas públicas.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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