Uma pesquisa da Conquer In Company mostra que 70% dos profissionais em cargos de liderança no Brasil já cogitaram abandonar a função por causa de impactos na saúde mental. O levantamento ouviu 750 participantes de diferentes regiões do país, entre líderes e especialistas de Recursos Humanos, e aponta um cenário de sobrecarga e falta de preparo estrutural nas empresas.
Sobrecarga e dificuldade de desconectar
Segundo o estudo, 90% dos líderes relatam trabalhar sob pressão constante, sendo que 44,6% classificaram essa cobrança como alta ou extrema. Entre os efeitos relatados estão cansaço crônico e esgotamento (57%) e a incapacidade de se desligar do trabalho fora do expediente (53%).
As principais atividades que mais sobrecarregam os gestores foram apontadas como: desenvolver pessoas e gerenciar conflitos internos (58%), conciliar planejamento estratégico com demandas operacionais (58%) e lidar com mudanças corporativas constantes (44%).
A diretora de Educação da Conquer In Company, Giovana Chimentão, destacou que há uma visão equivocada de que bons profissionais se tornam automaticamente bons líderes. “A liderança é uma competência construída. Quando a preparação não acompanha o aumento das responsabilidades, o desgaste e a sobrecarga acabam se tornando inevitáveis”, disse Chimentão.
O fenômeno do “líder improvisado”
O levantamento identificou raiz estrutural para a exaustão: 78% dos líderes assumiram cargos sem treinamento adequado, aprendendo a gerir equipes na prática, por tentativa e erro. Essa falta de capacitação contribui para que quase 90% dos entrevistados admitam conduzir processos de mudança organizacional com frequência sem clareza.
Além disso, a prioridade dada pelas empresas ao desenvolvimento de lideranças é considerada insuficiente por grande parte dos respondentes: 63% dos gestores e 58,4% dos profissionais de RH avaliam que o investimento é baixo ou inexistente nas organizações onde atuam.
Reconhecimento das limitações pelo RH
Entre os 350 profissionais de Recursos Humanos ouvidos, a escassez de tempo e culturas organizacionais pouco voltadas ao desenvolvimento são apontadas como barreiras aos treinamentos. Como reflexo, 54,1% dos profissionais de RH afirmam que os líderes cumprem as exigências do cargo apenas de forma moderada, e 34,6% classificam a capacidade dos gestores como baixa ou muito baixa para responder às responsabilidades atuais.
Geração Z evita cargos de gestão
Dados complementares da consultoria Robert Walters indicam que 72% dos profissionais da Geração Z preferem seguir carreira como especialistas ou colaboradores individuais em vez de assumir posições de gestão de pessoas. A preferência reflete o receio de herdar a sobrecarga que leva 7 em cada 10 gestores a considerar deixar a função.
Saúde mental e afastamentos em Minas Gerais
O conteúdo relaciona ainda dados sobre afastamentos por transtornos mentais: Minas Gerais registrou 83.321 afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, ocupando a segunda posição entre os estados brasileiros com maior número de trabalhadores incapacitados psicologicamente.
A psicanalista Fernanda Tavares comenta que, em uma cultura que valoriza a entrega contínua, o descanso passou a ser interpretado como falha, citando o conceito do filósofo Byung-Chul Han sobre a “Sociedade do Cansaço”. Tavares diferencia desejo de desacelerar e esgotamento extremo (burnout), afirmando que o primeiro é uma escolha consciente, enquanto o segundo representa uma falência das defesas psíquicas, quando o corpo e a mente já não suportam a sobrecarga.
Com informações de Paranaibamais




