O bloqueio quase total do Estreito de Ormuz há quase um mês trouxe alertas de que a atual perturbação no abastecimento global de energia pode superar os impactos da crise do petróleo da década de 1970. Especialistas ouvidos pela imprensa internacional apontam que os efeitos econômicos podem ser significativos e prolongados.
Lars Jensen, especialista em transporte marítimo e ex-diretor da Maersk, disse à BBC que a combinação da guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irã pode gerar um impacto “substancialmente maior” do que o registrado há cinco décadas. A declaração acompanha o aviso do diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, que afirmou recentemente que o mundo enfrenta “a maior ameaça da história à segurança energética global”. A AIE coordena políticas energéticas e reservas estratégicas de petróleo de 32 países industrializados.
O que ocorreu na crise dos anos 1970
A crise de 1973 teve origem em uma decisão política: em outubro daquele ano, produtores árabes impuseram um embargo a um grupo de nações lideradas pelos Estados Unidos em retaliação ao apoio dado a Israel durante a Guerra do Yom Kippur. O conflito, iniciado em 6 de outubro de 1973, envolveu um ataque conjunto do Egito e da Síria contra Israel. Além do embargo, houve redução coordenada na produção de petróleo, o que, segundo a economista Carole Nakhle, fez o preço do petróleo quase quadruplicar em poucos meses.
O aumento abrupto dos preços provocou racionamentos nos países consumidores e desencadeou uma “crise econômica e financeira global”. O pesquisador Tiarnán Heaney destaca que a alta do petróleo impulsionou a inflação, provocou cortes na atividade e elevou o desemprego, gerando greves, tumultos e aumento da pobreza. Estados Unidos e Reino Unido entraram em recessão entre 1973 e 1975. No Brasil, que havia registrado um crescimento do PIB de 14% em 1973, o ritmo caiu para 9% em 1974 e 5,2% em 1975, enquanto o crédito externo tornou-se mais caro, afetando as contas públicas. Um segundo choque ocorreu em 1979, com a Revolução Islâmica no Irã.
O quadro atual
Desde 28/2, quando EUA e Israel iniciaram uma guerra contra o Irã, o Estreito de Ormuz ficou praticamente fechado ao tráfego comercial. A região costuma responder por cerca de 20% do petróleo exportado globalmente. O presidente dos EUA, Donald Trump, tentou diversas medidas para restabelecer a passagem, incluindo pedir a países aliados que enviem navios militares para escoltar cargas e ameaçar ampliar ataques ao Irã caso não fosse permitida a passagem segura.
Jensen, que atualmente trabalha na consultoria Vespucci Maritime, afirmou que grande parte do petróleo que deixou a região há mais de um mês ainda está chegando às refinarias, mas que esse fluxo tende a interromper-se em breve. Segundo ele, a escassez observada deve piorar mesmo se o Estreito for reaberto rapidamente, e preços de energia elevados podem persistir por seis a 12 meses após o fim da crise.
Para Carole Nakhle, embora os efeitos sejam relevantes, o mercado atual é mais diversificado e menos dependente do petróleo do Oriente Médio do que na década de 1970, contando com mecanismos de resposta e reservas que antes não existiam. Heaney também aponta que maior conhecimento das economias e fontes alternativas podem tornar o mundo mais resiliente hoje.
Por outro lado, Alicia Garcia Herrero, economista-chefe para Ásia-Pacífico da Natixis CIB, lembra que os choques dos anos 1970 reduziram em 5% a 7% o fornecimento global, enquanto a crise atual afeta cerca de 20% do suprimento mundial. Ela alerta que, se a situação não melhorar rapidamente, a atual guerra pode provocar um choque maior, ampliando preços, pressionando a inflação e elevando os riscos de recessão, especialmente em países asiáticos importadores. Além do petróleo, há impactos em gás e produtos refinados, e, mesmo com reservas e ganhos de eficiência, a escala da perda de oferta torna a situação complexa sem solução imediata.
As análises destacam, portanto, diferenças e semelhanças entre os episódios, ressaltando que o desfecho dependerá da duração do conflito e da capacidade de reposição dos mercados.
Com informações de G1




