A interrupção do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, provocada pela escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, não só elevou os preços de petróleo e gás como também comprometeu o escoamento de outros produtos essenciais às cadeias globais de suprimento. O aumento já se reflete no valor da gasolina e nas contas de aquecimento doméstico no Reino Unido.
Fertilizantes
Derivados do petróleo e do gás, os petroquímicos utilizados na fabricação de fertilizantes — como ureia, potássio, amônia e fosfatos — dependem em grande parte das rotas que passam pelo Estreito de Ormuz. A ONU estima que cerca de um terço dos fertilizantes do mundo transita pela região. Dados da Organização Mundial do Comércio indicam colapso nos envios desses produtos pelo estreito desde o início do conflito. Pesquisadores do Instituto Kiel alertam que um fechamento mesmo relativamente breve pode comprometer uma safra inteira: segundo o trabalho do instituto, um bloqueio total poderia elevar os preços globais do trigo em 4,2% e de frutas e vegetais em 5,2%.
O instituto estima que o impacto nos preços de alimentos seria mais severo em países como Zâmbia (alta projetada de 31%), Sri Lanka (15%), Taiwan (12%) e Paquistão (11%). A Rússia, que normalmente responde por cerca de um quinto das exportações globais de fertilizantes, pode aumentar produção para compensar a lacuna — segundo Kirill Dmitriev, enviado especial do presidente Vladimir Putin, a Rússia está “bem posicionada”.
Hélio
Aproximadamente um terço das remessas mundiais de gás hélio sai do Catar e repassa pelo Estreito de Ormuz. O hélio, subproduto do gás natural, é usado na fabricação de wafers para semicondutores e no resfriamento dos ímãs de aparelhos de ressonância magnética (MRI). A grande usina de Ras Laffan, no Catar, suspendeu produção após ataques iranianos com mísseis e drones; o governo do Catar informou que os reparos podem levar de três a cinco anos, o que eleva as preocupações sobre o abastecimento.
Em 2023, a Associação da Indústria de Semicondutores dos EUA advertiu para possíveis “picos de preços” caso o fornecimento global de hélio fosse interrompido. Prashant Yadav, pesquisador sênior de saúde global do Council on Foreign Relations, ressaltou que máquinas de ressonância magnética precisam entre 1.500 e 2.000 litros de hélio para resfriar os ímãs e que parte desse gás se perde por evaporação, elevando o risco de aumento nos custos de exames caso a escassez persista.
Derivados petroquímicos e medicamentos
Produtos como metanol e etileno são matérias-primas fundamentais para a indústria farmacêutica — empregados na produção de analgésicos, antibióticos e vacinas. Países do Conselho de Cooperação do Golfo respondem por cerca de 6% da capacidade petroquímica global, com cerca de metade das exportações direcionadas à Ásia. A Índia, produtora de cerca de um quinto das exportações globais de medicamentos genéricos, depende de rotas aéreas e marítimas que passam por grandes hubs do Golfo, especialmente Dubai, afetados pelo conflito. Analistas alertam para a possibilidade de aumento de preços de medicamentos para os consumidores em razão das interrupções.
Enxofre
O enxofre, subproduto do processamento de petróleo e gás, tem cerca de metade do seu comércio marítimo global transitando pelo Estreito de Ormuz. Além do uso como fertilizante, ele é fundamental na produção de ácido sulfúrico, empregado no processamento de cobre, cobalto e níquel e na extração de lítio — metais essenciais para fabricação de baterias usadas em eletrodomésticos, veículos elétricos e equipamentos militares, como drones. Analistas afirmam que a continuidade da interrupção no fornecimento de enxofre tende a pressionar os preços de produtos que dependem de baterias.
As implicações desses gargalos já se manifestam em diferentes setores e podem se estender por meses ou anos, dependendo da duração das restrições ao tráfego no Estreito de Ormuz.
Com informações de G1




